O dia em que não fiz batatas fritas
Como esse ideal é impossível de ser alcançado, encontramos a culpa

Acordei antes do dia clarear. Fechei os olhos por mais alguns minutos e, pouco depois, senti uma mãozinha acariciar meus cabelos.
— Mamãe, posso dormir com você um pouquinho?
Respondi que sim. O dia já havia começado, mas eu insistia em roubar alguns minutos a mais daquele abraço.
Os e-mails traziam novas publicações e a lista de tarefas parecia maior do que as horas do dia. Entre um afazer e outro, preparei o café da manhã, organizei a rotina da casa e voltei ao computador.
Na hora do almoço, o dilema de sempre:
- O que cozinhar hoje?
Meu primeiro pensamento foi batatas fritas. Rápido. Todo mundo gosta. Mas acabei preparando uma refeição mais saudável. Enquanto servia o almoço, fiz o que nós mães conhecemos bem: julguei a mim mesma.
Pensei que deveria ter levantado mais cedo. Que não deveria ter deixado ela deitar na minha cama. Que poderia ter produzido mais. Que poderia ter brincado mais.
Então parei. Sacudi a cabeça como quem quisesse mandar o pensamento para longe.
Não é a maternidade, por si só, que produz essa culpa. É a forma como nossa sociedade construiu a maternidade. Espera-se que a mulher seja mãe e profissional com leveza, como se o cansaço fosse apenas falta de planejamento. Como esse ideal é impossível de ser alcançado, encontramos a culpa.
E é justamente por isso que acredito que não deveríamos reforçar mais cobranças umas sobre as outras.
Antes de criticar a mãe que recorre à televisão para conseguir terminar um trabalho, talvez possamos perguntar como foi o dia dela. Antes de condenar a refeição improvisada, talvez possamos lembrar que alguém passou horas dividindo-se entre filhos, trabalho e casa.
Entendi que a verdadeira medida da maternidade está na capacidade de reconhecer que estamos fazendo o melhor possível com o tempo, a energia e os recursos que temos.
Naquele dia, minha maior vitória não foi concluir todas as tarefas nem preparar um almoço digno de fotografia. Foi entender que eu não precisava acrescentar mais uma cobrança à lista. Resolvi medir meu dia por outro parâmetro. Não pelas batatas fritas que deixei de fazer, mas pela culpa que decidi deixar de alimentar!
Jéssica Christan Silva Soares
Advogada, escritora e membra do Coletivo Mulheres na Política de São José do Rio Preto. Escreve sobre maternidade, direitos das mulheres e os desafios da vida cotidiana sob a perspectiva da empatia, da justiça e do cuidado.