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O carnaval dos milhões e o fomento dos trocados

Rio Preto merece uma política cultural de Estado, transparente e estruturante

por Jorge Vermelho
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
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São José do Rio Preto vive um paradoxo que beira o escárnio. Enquanto artistas, produtores, coletivos, mestres da cultura popular e agentes da economia criativa aguardam há décadas uma política pública consistente, a atual gestão municipal escolheu o espetáculo fácil, caro e efêmero como vitrine de governo.

Em quatro dias de festa, a Prefeitura destina cerca de R$ 6 milhões para um carnaval sertanejo, rebatizado de Carnavirou, com atrações globais e estrutura monumental. Ao mesmo tempo, o fomento anual à cultura local — que estrutura grupos, forma público, preserva memória e ativa territórios — recebe R$ 1,5 milhão. A comparação é obscena: uma política pública inteira comprimida ao valor de uma semana de palco e camarim.

Como se não bastasse, está prestes a ser lançado um Chamamento Público para o aniversário da cidade com investimento total de R$ 90 mil para 30 espetáculos locais. Na prática, trata-se de uma remuneração simbólica, incompatível com qualquer noção de dignidade profissional. A mensagem é clara: milhões para artistas importados; migalhas para quem constrói a cultura da cidade ao longo do ano.

Há décadas, o setor cultural reivindica a destinação de 1% do orçamento municipal para a Cultura — meta modesta, adotada por cidades que entendem cultura como investimento, não ornamento. Cultura é educação informal, saúde simbólica, geração de renda, pertencimento. Sem orçamento estrutural, a cidade escolhe o vazio programado: shows importados, sem enraizamento, sem legado, sem política.

O problema não é a festa. O problema é o modelo. Quando a festa substitui o fomento, o poder público deixa de ser gestor e passa a ser produtor de eventos. Indícios apontam concentração de benefícios em um grupo minoritário de fornecedores e intermediários, enquanto a cadeia produtiva local segue precarizada, editais são tímidos, políticas de formação inexistem e espaços culturais agonizam, como o Museu do Silva, o Centro Cultural Profº Daud Jorge Simão e a Biblioteca Municipal.

O Carnavirou não constrói cultura; constrói marketing. Não fortalece a diversidade; fortalece a monocultura do entretenimento de massa. Não deixa legado; deixa resíduos.

Rio Preto merece mais do que um calendário de festas. Merece uma política cultural de Estado, transparente e estruturante. O que se vê não é apenas má gestão — é uma escolha política que transforma cultura em espetáculo e a cidadania cultural em figurante.

Enquanto isso, a cultura de Rio Preto não virou. Foi virada.

Jorge Vermelho

Artista, Produtor e Gestor Cultural.