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O Cão Orelha e uma análise social

A morte de Orelha escancara que a seletividade penal segue viva

por Vanessa Nunes
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Eis que o futuro imita o passado e com perplexidade acompanhamos outro caso de um grupo de jovens que matam um inocente. Em 1997 o índio Galdino foi queimado vivo por pura diversão, em 2026 temos Orelha um dócil cachorro em busca de carinho que encontrou pauladas, sendo sua vida ceifada de forma cruel. Em ambos casos temos outro ponto comum: os jovens envolvidos são de classe média alta e o pior é ter que engolir a impunidade acobertada por viagens a Disney - no Caso de Galdino, um dos responsáveis ocupa um cargo público com alto salário.

Entretanto, tais atitudes não me causam estranhamento diante da sociedade omissa que vivemos. A falta de responsabilidade começa com nossas crianças que, além de terceirizadas, não podem sofrer frustração. Sendo assim, não há estabelecimento de limites, o que cria adolescentes com verdadeiros senso de “Reis do Universo”.

Todavia, não é só na questão educacional que vou estabelecer nosso debate. Quero que o leitor imagine um outro cenário caso os jovens agressores fossem desfavorecidos financeiramente, ou mesmo negros. E é aí que mora a injustiça, porque sabemos o peso da mão do estado sobre essa população. Há algum tempo, escrevi sobre o preço da vida. Na época, ilustrei meu artigo usando o exemplo da série "Round 6", que punia a pobreza com a morte. O pobre Orelha se foi, será que vamos aprender? Sinceramente, não sei. O que podemos dizer é que os espaços de poder estão ocupados por quem reza essa mesma cartilha de coação de testemunhas, ameaça e uso de influência.

O caso do cão Orelha não é um desvio, mas um sintoma de uma sociedade que relativiza a violência quando ela parte de determinados corpos e de determinados sobrenomes; que se indigna nas redes sociais, mas silencia quando a justiça deveria ser aplicada com rigor e igualdade. A morte de Orelha escancara que a seletividade penal segue viva: ela escolhe quem pode ser punido e quem pode ser protegido, quem é rapidamente julgado e quem recebe tempo, recursos e influência para escapar.

Orelha não tinha defesa, não tinha voz, não tinha advogado, não tinha sobrenome. E talvez por isso sua morte tenha chocado tanto: porque expôs, de maneira brutal, o quanto ainda existem vidas que valem mais do que outras, o quanto ainda valem algumas vidas e o quanto outras são descartáveis. Resta saber se este caso será apenas mais um episódio arquivado na memória coletiva ou se, enfim, servirá como ponto de ruptura para repensarmos educação, justiça e responsabilidade social.

Vanessa Nunes

Professora municipal; Membra do coletivo Mulheres na política.