O banco dos réus
A impressão é a de que o sistema se move com extremo cuidado quando envolve poderosos

O caso envolvendo o Banco Master, conforme amplamente noticiado pela imprensa, expôs mais do que relações empresariais controversas. Escancarou a sensação de que, no Brasil, existe um sistema que opera para proteger quem está próximo demais do poder. Não é um episódio isolado. É um padrão que se repete e que já não engana ninguém.
A indignação popular nasce quando fatos se acumulam, personagens se repetem e, ainda assim, tudo parece caminhar para lugar nenhum. O Banco Master virou símbolo porque concentrou empresários já conhecidos do noticiário, políticos acostumados a atravessar crises e um emaranhado institucional que mais encobre do que esclarece. O problema não é apenas o banco. É o ambiente que o sustenta.
Nesse contexto, o Supremo Tribunal Federal deixou de ser apenas árbitro para se tornar protagonista permanente. Ministros como Dias Toffoli e Alexandre de Moraes passaram a ser criticados não por acusações pessoais, mas pela forma como casos sensíveis vêm sendo conduzidos. Segundo análises publicadas, decisões monocráticas, ampliação de competências, imposição de sigilos extensos e interferências na atuação da Polícia Federal passaram a compor um método que gera desconforto e desconfiança.
O uso recorrente do sigilo, muitas vezes sem justificativa clara ao público, alimenta a percepção de que a transparência deixou de ser regra para se tornar exceção. Da mesma forma, quando a Polícia Federal parece atuar sob limites impostos de fora, a sensação é a de que a investigação perde autonomia e a Justiça perde credibilidade.
O que revolta não é a interpretação da lei, mas o efeito político das decisões. A impressão generalizada é a de que o sistema se move com extremo cuidado quando envolve figuras poderosas, enquanto o discurso técnico funciona como escudo para evitar responsabilizações incômodas. Não se afirma crime. Mas o resultado prático é evidente: os de sempre seguem protegidos.
O cidadão percebe quando o rigor muda conforme o nome envolvido. Percebe quando processos se arrastam, quando o silêncio institucional fala mais alto do que explicações e quando o tempo vira aliado dos escândalos. A indignação não nasce da ignorância, mas da repetição.
O apelido “Banco dos Réus” surge dessa percepção amarga: os réus nunca sentam no banco. Tudo permanece em suspenso, sob sigilo, sob controle, até que a atenção pública se dissipe. Enquanto isso, a confiança nas instituições se desgasta.
Justiça não se sustenta pela exceção permanente nem pela centralização excessiva de poder. Sustenta-se por limites claros, transparência e respeito às instituições investigativas. Quando isso falha, o que sobra é a sensação de que o sistema não foi feito para todos.
O Banco dos Réus é apenas o sintoma mais recente.
A doença é a normalização da proteção aos poderosos.
Márcio Vidoti
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