Diário da Região
RADAR ECONÔMICO

Nós e o acordo Mercusul-UE

O entendimento político entre os blocos abre caminho para a formação de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo 700 milhões de consumidores

por Aldina Clarete D'Amico
Publicado há 6 horasAtualizado há 3 horas
Aldina Clarete D’Amico (Divulgação)
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Aldina Clarete D’Amico (Divulgação)
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Após mais de duas décadas de negociações, o acordo entre Mercosul e União Europeia voltou a ser apresentado como um marco histórico da diplomacia comercial. O entendimento político entre os blocos abre caminho para a formação de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 700 milhões de consumidores e um PIB combinado superior a US$ 20 trilhões. O entusiasmo, porém, exige cautela.

O acordo ainda está longe de produzir efeitos concretos. Antes de entrar em vigor, precisa ser ratificado pelos parlamentos nacionais, especialmente na União Europeia, onde resistências políticas seguem fortes. Setores agrícolas e ambientais pressionam por salvaguardas adicionais, o que pode alterar prazos, regras e até o alcance do tratado. Não se trata, portanto, de um movimento irreversível nem de benefícios imediatos.

Sob a ótica brasileira, o discurso oficial destaca o ganho de acesso ao mercado europeu, sobretudo para produtos agroindustriais. No entanto, o acordo também escancara uma questão central: o Brasil chega a essa abertura comercial com fragilidades internas não resolvidas. A indústria nacional enfrentará concorrência direta de produtos europeus altamente subsidiados, em um ambiente marcado pelo elevado Custo Brasil, pela complexidade tributária e por deficiências logísticas históricas.

É verdade que a redução de tarifas pode facilitar o acesso a máquinas, equipamentos e tecnologias, favorecendo a modernização produtiva. Mas esse potencial só se concretiza para empresas que já dispõem de escala, capital, gestão profissional e capacidade de adaptação. Para parte significativa da indústria, o risco é de perda de competitividade antes mesmo de colher eventuais ganhos.

Outro ponto crítico são as exigências ambientais e de conformidade impostas pela União Europeia. Embora legítimas do ponto de vista regulatório, essas regras tendem a aumentar custos e ampliar assimetrias entre empresas e países, penalizando especialmente quem não dispõe de estrutura técnica e financeira para rápida adequação.

Nesse contexto, o acordo funciona menos como solução e mais como teste. Ele revela o quanto o Brasil está — ou não — preparado para competir em igualdade de condições em um mercado altamente regulado e exigente.

Portanto, o Acordo Mercosul – UE não é bom nem ruim por si só. Ele separa empresas preparadas das improvisadas, indústrias estratégicas das vulneráveis, e países que planejam dos que apenas reagem.

Como representantes da Indústria Regional, entendemos que acordos internacionais só geram benefícios concretos quando o País está preparado internamente. Precisamos de segurança jurídica, infraestrutura adequada, credito acessível, reforma tributaria eficiente e diversidade de negócios que valorize quem produz, gera empregos e investe no Brasil.

O CIESP Noroeste Paulista acompanha atentamente esse cenário. Nosso papel é orientar, apoiar e preparar as indústrias para esse novo contesto, transformando desafios em oportunidades e assegurando que a indústria brasileira - especialmente a indústria regional - tenha voz, competitividade e protagonizando nesse novo ciclo econômico.

Aldina Clarete D’Amico

Diretora titular do Ciesp Noroeste Paulista