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Música e poesia (para um Ano Novo melhor)

por Wilson Daher
Publicado há 2 horas
Wilson Daher (Wilson Daher)
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Que me perdoe o habibe Toufic Anbar, mestre em pesquisas no campo da música de todos os tempos: estou aqui, invadindo um pouco de seu espaço, de sua coluna sobre a história das canções mundiais, porque não resisti, tocado pelo sentimentalismo das festas de fim de ano, a expor certas preferências, quando se trata de sentir a poesia musicada (ou a música poetizada, tanto faz).

O cancioneiro brasileiro tem centenas de letras belíssimas que respiram, inspiram e transpiram tanta poesia, de tal forma que seria impossível, em pequena crônica, trazê-las à luz de forma mais extensa e intensa, o que seria possível apenas por meio de um tratado pesquisado e escrito por especialistas do ramo.

Desta forma, esta crônica só teria sentido se, mesmo não se tratando de pesquisas aprofundadas sobre nossas canções de todos os tempos, eu optasse por pelo menos quatro composições que julgo ser poesia pura, que falam da fantasia onírica, da saudade, do medo do abandono, do quarto vazio, da subjetividade com que o poeta se defronta, pondo luzes em meio ao pobre ambiente em que vive.

Vamos lá, então: Paulo Cesar Pinheiro tinha apenas 14 anos, quando fez a letra da música “Viagem”. Um clássico imortal, tanto quanto são imortais Chopin e Rachmaninoff. Um tempo onírico de uma viagem contemplativa sob as bênçãos da poesia: "Mas pode ficar tranquila, minha poesia, pois nós voltaremos numa estrela-guia, no clarão da lua, quando serenar. Ou talvez até, quem sabe, nós só voltaremos, num cavalo baio, no alazão da noite, cujo nome é raio, raio de luar". De tirar o fôlego.

Minha segunda escolha foi a de um clássico samba-canção dos anos 1950, de Dolores Duran, uma magnífica voz, hoje desconhecida pelas novas gerações: “A Noite do meu bem”: “Hoje eu quero paz de criança dormindo, e o abandono de flores se abrindo, para enfeitar a noite do meu bem, quero a alegria de um barco voltando, quero ternura de mãos se encontrando, para enfeitar a noite do meu bem”. Ah! Se pudéssemos, hoje, reavivar tanta poesia em nossas vidas!

Pensei muito, em tantas poéticas canções, para optar por “Chão de estrelas” de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, da década de 1950, ainda tão conhecida: “A porta do barraco era sem trinco, mas a lua furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão. Tu pisavas nos astros distraída, sem saber que a ventura desta vida é a cabrocha, o luar e o violão”.

Por fim, uma escolha muito pessoal, sobre perda e solidão, quando os objetos nos falam daquela sensação de abandono: “Lençol de linho”, também um velho Samba-canção, de Matias da Rocha e Alcides Gonçalves, imortalizada na voz de Nelson Gonçalves: “Se este abajur discreto, que tua mão apagava, pudesse ser testemunha do que a noite ocultava, se tu pudesses voltar, de novo ao cenário antigo, este quarto não seria o meu maior desabrigo”.

Paro por aqui, pois se cabem todas as poesias em nosso coração, o mesmo não se dá com o espaço do jornal. Os que me leem talvez pudessem preencher este espaço com a poética de suas raízes.

Wilson Daher

Psiquiatra, cronista, membro acadêmico da Arlec. Mestre e Doutor pela FAMERP.