Diário da Região
CONJUNTURA

Multilateralismo

por Ary Ramos da Silva Júnior
Publicado em 23/01/2026 às 23:22
Ary Ramos da Silva Júnior (Ary Ramos da Silva Júnior)
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Ary Ramos da Silva Júnior (Ary Ramos da Silva Júnior)
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A sociedade internacional criou, no período posterior da pós-segunda guerra mundial, as bases do chamado multilateralismo, neste ambiente foram criadas inúmeras instituições multilaterais, neste cenário foram construídas regras de convivência e tolerância entre as nações, definindo fronteiras entre os países, reduzindo os conflitos militares, construindo novos espaços de recuperação econômica e o tão desejado desenvolvimento econômico.

Depois de mais de 60 milhões de mortos na segunda guerra mundial, as nações acreditavam que eram necessárias, para evitar novos conflitos militares, a construção de uma nova estrutura institucional, neste momento foram criadas instituições como Organização das Nações Unidas (ONU), Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), posteriormente substituída pela Organização Mundial de Comércio (OMC), Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e inúmeras outras instituições vinculadas a estas agências multilaterais, tais como Organização Mundial de Saúde (OMS), Unicef, Unesco, FAO, dentre outras.

Este modelo de organização institucional foi, relativamente, bem sucedido, evitando a tão temida terceira guerra mundial, preocupação de todos os povos, a economia internacional entrou num momento de grande crescimento econômico, os setores produtivos passaram a se integrar rapidamente, surgiram novos produtos e novas mercadorias, novos modelos produtivos substituíram o consolidado modelo fordista e taylorista, inaugurando novos espaços de desenvolvimento econômico e melhorias substanciais para a população.

Neste período, os conflitos militares continuaram, como sempre, mas estes confrontos eram localizados em algumas regiões do mundo, conflitos fronteiriços, guerras regionais e questões culturais milenares. Importante destacar ainda que, neste momento, o mundo sentiu na pele a chamada Guerra Fria, conflito entre os Estados Unidos e União Soviética, responsável por afrontas constantes, discursos calorosos e ameaças permanentes, mesmo assim, o arranjo institucional, criado no pós-guerra, teve êxito para evitar um confronto militar fratricida entre potências nucleares que poderiam destruir a civilização.

Nos últimos anos, percebemos que o arcabouço institucional criado depois da segundo guerra mundial vem se fragilizando cotidianamente, os acordos internacionais vem sendo rompidos, as invasões militares estão crescendo, a soberania das nações está sendo desrespeitada, as agressões verbais entre autoridades estão aumentando e o multilateralismo vem perdendo espaço na agenda internacional, levando a sociedade a um escalada perigosa e assustadora, impulsionando incertezas, volatilidades e instabilidades que, prejudicam o funcionamento da economia mundial e impacta fortemente sobre os setores produtivos.

A Organização das Nações Unidas (ONU) vem perdendo espaço, a Organização Mundial de Comércio (OMC) foi escanteada, acordos globais assinados pelas nações, como aqueles relacionados a defesa do meio ambiente e dos direitos humanos estão sendo abandonados e, ao mesmo tempo, as tensões militares crescem de forma acelerada e o medo e o desespero aumentam rapidamente, gerando ansiedades, violências e ressentimentos.

Neste momento, percebemos preocupações constantes em todas as regiões globais, o discurso do primeiro-ministro do Canadá Mark Carney, no Fórum Econômico Mundial, foi inspirador e preocupante, afinal ele nos mostra, claramente, que a “ordem baseada em regras” acabou, embora todos saibamos que esta ordem sempre priorizou os interesses do Império, neste momento a hipocrisia acabou e o verniz moral ficou para trás.

Anteriormente, era preciso utilizar o idioma da “democracia”, da “liberdade”, das “regras”, da “responsabilidade”. No mundo contemporâneo, o Trumpismo deixa claro, “manda quem pode, obedece quem precisa. E não pede desculpas. Ao contrário: exibe a brutalidade como virtude”.

Ary Ramos da Silva Júnior

Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.