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Mulheres, política e exílio

A exclusão de determinados grupos do espaço público compromete a própria essência da política

por Lívia Maria de Carvalho
Publicado há 8 horasAtualizado há 8 horas
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Em anos eleitorais, a democracia expõe algumas de suas contradições mais profundas. Embora o direito ao voto e à candidatura esteja formalmente assegurado, a participação das mulheres na política ainda é marcada por desigualdades estruturais, violência de gênero e exclusão simbólica. Esse cenário dialoga diretamente com a história das mulheres exiladas políticas, cuja memória é essencial para compreender os limites da democracia contemporânea.

Mesmo com avanços normativos, como a política de cotas e regras de financiamento eleitoral, as mulheres continuam enfrentando menor acesso a recursos, visibilidade e apoio partidário. Soma-se a isso a violência política de gênero, frequentemente intensificada no ambiente digital, que busca deslegitimar candidatas por meio de ataques à aparência, à vida privada e à capacidade intelectual. Trata-se de uma estratégia de poder destinada a afastar mulheres dos espaços de decisão.

A história das exiladas políticas demonstra que essa exclusão não é recente. Durante regimes autoritários, muitas mulheres foram perseguidas, presas, torturadas e forçadas ao exílio por sua atuação política. Ainda assim, suas trajetórias foram frequentemente invisibilizadas, reduzidas à condição de acompanhantes de militantes homens, apesar de terem desempenhado papéis fundamentais na resistência, na produção intelectual e na organização política.

Contudo, o exílio político de mulheres não é apenas um fenômeno do passado. Na contemporaneidade, observa-se também o banimento simbólico — e, em alguns casos, o exílio real — de mulheres que divergem ou rompem com determinados grupos políticos. Aquelas que se recusam a acatar diretrizes ou posições dominantes passam a ser alvo de ataques morais e políticos, sendo frequentemente desmoralizadas, silenciadas e excluídas do debate público.

A exclusão de determinados grupos do espaço público compromete a própria essência da política enquanto espaço de pluralidade. Resgatar a memória das mulheres exiladas é um ato de justiça histórica e também um alerta para o presente. Em ano eleitoral, não basta defender formalmente a participação feminina: é necessário garantir que mulheres possam ocupar o espaço público sem serem silenciadas ou empurradas para as margens do debate político.

Lívia Maria de Carvalho

Advogada. Membra do Coletivo Mulheres na Política. Secretária-Geral da Comissão Estadual de Igualdade Racial e Relatora do Comitê Especial sobre Julgamento com Perspectiva de Gênero da OAB/SP.