ARTIGO

Mulheres no Agro não é o futuro, é o agora

O debate não é sobre inclusão simbólica, mas sobre formar, reter e desenvolver talentos

por Rui Carvalho
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
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A participação feminina no agronegócio deixou de ser promessa. Mulheres já lideram pesquisas, operam máquinas, tomam decisões e geram resultados. Como diretor de RH, vejo que contratar é apenas o começo: permanência e crescimento dependem de cultura, segurança, critérios claros e capacitação. Em um setor majoritariamente masculino, líderes homens têm responsabilidade direta por acelerar — ou frear — essa transformação.

A conquista da cientista Mariangela Hungria, primeira brasileira a receber o World Food Prize, reforça algo já evidente: competitividade passa por ciência, inovação e pessoas. E não há futuro sem ampliar, de forma concreta, o espaço das mulheres.

Os desafios ainda são relevantes: barreiras culturais, vieses, falta de referências e limitações de acesso à formação. Ainda assim, os avanços são claros. Segundo o IBGE, mais de 31% das propriedades rurais são comandadas por mulheres, chegando a 53,8% no Nordeste. Isso evidencia protagonismo e amplia a responsabilidade do setor em criar condições para avanço também em áreas técnicas e de liderança.

Ampliar essa participação vai além de abrir vagas — exige método. Na prática, a permanência das mulheres no agro se sustenta em quatro pilares: capacitação com oportunidades reais; ambiente seguro e respeitoso; critérios transparentes de desenvolvimento; e pertencimento, com redes de apoio e escuta ativa.

Nesse contexto, o papel dos homens deixa de ser apoio e se torna compromisso. Cabe revisar vieses, garantir igualdade de critérios, patrocinar talentos e agir diante de comportamentos inadequados.

Empresas têm papel decisivo. Na Tereos, assumimos em 2021 o compromisso de alcançar 17,5% de mulheres na liderança e 15% no quadro geral até 2032/2033. Já superamos 15% nas posições operacionais e atingimos 16% na liderança na safra 24/25. A agenda inclui capacitações e iniciativas como o Workshop Mulheres no Agro, que reuniu cerca de 300 participantes.

O debate não é sobre inclusão simbólica, mas sobre formar, reter e desenvolver talentos em um setor que exige produtividade, segurança e inovação. A conquista de Mariangela mostra que competência não tem gênero — mas as oportunidades, muitas vezes, ainda têm. Transformar isso é responsabilidade compartilhada. Quando cultura e capacitação viram estratégia, a presença feminina deixa de ser exceção e passa a sustentar a competitividade do agro. Mulheres no agro não é o futuro. É o agora.

Rui Carvalho

Diretor de Recursos Humanos, Saúde e Segurança da Tereos.