Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
ARTIGO

Muito além de Marte e Vênus

Os genes encontrados não ajudarão a responder às diferenças no nível social

por Fábio Rogério de Moraes
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

Homens e mulheres são diferentes. Não tanto como se viessem de planetas diferentes, como o famoso livro de John Gray anunciava, mas ainda assim há muitas diferenças entre o modo de pensar e de ver o mundo. Agora, do ponto de vista médico, há algumas condições que são mais comuns em um sexo do que no outro. Por exemplo, se você conhece alguém com a Doença de Parkinson, há aproximadamente 70% de chance de ser um homem. Tendência semelhante ocorre com a esquizofrenia e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Mulheres também desenvolvem essas condições, mas elas são muito mais comuns em homens. De forma contrária, cerca de 70% dos casos de Alzheimer ocorrem em mulheres. Elas também são mais propensas a sofrer de depressão e ansiedade.

Apesar de a ciência ainda não ter uma resposta para a discrepância entre os sexos nessas condições, um trabalho publicado em abril na prestigiosa revista Science deu um passo a mais nessa direção. Liderados pelo Dr. Armin Raznahan, pesquisador da área de neurogenômica do desenvolvimento do Instituto Nacional de Saúde Mental, em Bethesda, nos Estados Unidos, os pesquisadores encontraram um repertório de 133 genes diferentemente expressos em todas as seis regiões do cérebro avaliadas no estudo. O trabalho indica ainda que as mudanças são sutis, de forma que a maior parte das funções desempenhadas pelo cérebro não apresenta diferenças entre os sexos. Ainda assim, por mais sutis que sejam, os resultados foram consistentes.

Neste trabalho, assim como em muitos outros da área da genômica, a busca por biomarcadores é como procurar uma agulha no palheiro. Os pesquisadores estudaram 680 mil neurônios excitatórios, 290 mil neurônios inibitórios e 270 mil células gliais de 30 pessoas, monitorando mudanças na expressão de 4.300 genes. A diferença entre os sexos corresponde a apenas 1% da variação total encontrada, sendo que genética e estilo de vida influenciam muito a forma como todo o nosso sistema responde por meio da expressão gênica. Enquanto milhares de genes apresentam alterações de expressão nos cérebros de homens e mulheres, apenas os 133 genes reportados mostraram essa diferença em todos os tipos celulares e em todas as regiões do cérebro. É como uma assinatura biológica, revelando um padrão presente em todas as pessoas do estudo.

Os genes encontrados não ajudarão a responder às diferenças entre homens e mulheres no nível social. Aliás, existe mesmo essa diferença? Quantas vezes comportamentos popularmente associados a um sexo são mais comuns no seu parceiro ou parceira, em um amigo ou amiga, ou mesmo em um colega de trabalho? A variabilidade no nível social é altíssima. Mas pelo menos estamos um passo mais próximos de entender por que algumas das doenças mentais citadas acima apresentam esse viés masculino, por ora, ou feminino, em outras situações.

Fábio Rogério de Moraes

Físico, Auxiliar de Pesquisa, IBILCE - UNESP