Moinho Santista
O Moinho Santista não entregava apenas o pão da vida; entregava, também, o linho dos esquecidos

O sol ainda nem bem despontava sobre as copas dos cafezais e a colônia já se transformava num formigueiro humano, vibrando entre vozes, peneira, rastelos, sacarias e o tilintar dos caldeirões. Era época de colheita, aquele tempo bendito em que o suor se convertia em esperança e o pátio da fazenda virava o palco de uma festa silenciosa, feita de idas e vindas de gente humilde.
Naquele tempo, a pobreza não era uma visita passageira; era moradora antiga, sentada à mesa de tábuas rudes. Ir à cidade para buscar um corte de fazenda ou uma camisa de brim era luxo reservado aos coronéis e seus herdeiros. O caboclo, mestre na arte de tirar leite de pedra e poesia da lida, encontrou sua alfaiataria nos armazéns de ponta de vila, ou de venda à beira da estrada boiadeira, onde o que sobrava virava tesouro. O tecido vinha de longe, do porto de Santos, daquela empresa pioneira fundada por José Puglisi Carbone em 1905, que alimentava o Brasil com sua farinha de trigo. Mas, para a nossa gente da roça, o Moinho Santista não entregava apenas o pão da vida; entregava, também, o linho dos esquecidos.
O ritual de transformação era sagrado e envolto em fumaça de lenha. O saco de sessenta quilos, depois de cumprir sua missão nos fornos, enfrentava a fúria do caldeirão de ferro. Era preciso alvejar, ferver exaustivamente até que a trama de algodão grosso se rendesse à brancura. Depois, vinha o banho de anilina na vasilha de barro, onde cada um escolhia o tom de sua própria dignidade: um azul de céu, um verde de mata ou um pinhão terroso. Só então entravam em cena as mãos de fada das costureiras da colônia, que, com agulhas certeiras e máquinas de pedal, transformavam o bruto em roupas do dia a dia.
O detalhe — ou talvez o charme indomável daquela moda compulsória — é que o letreiro do Moinho era persistente como a reza de um devoto. Por mais que a fervura castigasse o pano e a tinta tentasse esconder a origem, a marca subjazia sob a cor nova. No balanço da dança no terreiro ou no esforço do eito sob o sol de meio-dia, lá estava ele, denunciando o segredo: "Santista".
Aquelas letras fantasmas, teimosas sob a tinta, eram o selo de uma época de bravura. Ninguém baixava a cabeça. No fundo, todos sabiam que aquela estampa invisível era a prova de que, na falta do cetim, o povo da roça vestia-se de inventividade e honra. A roupa não vinha da vitrine iluminada da capital, mas da superação de quem transformava sacos de farinha em mantos de festa, carregando no corpo a marca de uma luta que nenhuma anilina jamais conseguiria apagar da memória.
Jocelino Soares
Artista plástico, pós-graduado Arte-educação. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.