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Mentes geniais e extravagantes

Einstein desprezava a idolatria, revelando impressionante humildade intelectual

por Eurípides A. Silva
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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A visão estereotipada de que “cientistas gênios são criaturas brilhantes, intolerantes e malucas” (“genius and mad scientists”), vivendo isolados nos seus laboratórios, não passa de um mito popular há muito em desconstrução. Embora as pesquisas de ponta, demandando elevados níveis de abstração, senso de identidade e paixão pelo conhecimento, ainda alimentem essa visão equivocada por meio de filmes, desenhos animados e histórias em quadrinhos, a verdade é que os cientistas contemporâneos atuam em regime de colaboração, em ambientes interdisciplinares e internacionais no interior de universidades e laboratórios, públicos ou privados. Não por acaso, o prêmio Nobel costuma ser dividido por mais de um cientista de uma mesma categoria.

Um exemplo fascinante disso é o de Albert Einstein (1879-1955), cujas descobertas alteraram a compreensão humana sobre o Universo. À parte sua monumental produção científica (e seus próprios relatos de “infelizes e questionáveis comportamentos” sobre sua vida pessoal), Einstein desprezava a idolatria, revelando impressionante humildade intelectual, testemunhada por amigos como Kurt Gödel, renomado lógico matemático e companheiro de lendárias e profícuas caminhadas matinais, nas décadas de 1940 e 1950.

Rezam suas biografias, o costume de dar aos seus animais de estimação nomes de colegas famosos, não raro “confidenciando-lhes” as teorias que orbitavam sua mente. Aliás, prova de seu “transbordante senso de humor e sagacidade”, ele sempre deixava dois buracos para seus gatos, nas portas de entrada de suas residências: um buraco grande, para os gatos maiores, e um pequeno, para os menores! Seus hábitos extravagantes incluíam uma vasta e desgrenhada cabeleira (“meio de se concentrar no trabalho”), sua aversão às meias (“inúteis e incômodas”) e a inacreditável compulsão por recolher “bitucas” nas ruas, para abastecer seu indefectível cachimbo! Segundo W. Isaacson (“Einstein, sua vida, seu universo”), essas excentricidades, mais do que meras manias, faziam parte da criatividade de um espírito que negava a se encaixar em padrões.

Antes de encerrar, seguem dois de seus célebres aforismos: "Quando um besouro cego rasteja pela superfície de um globo, ele não sabe que a trajetória que percorre é curva; tive bastante sorte em descobrir isso!" (“A janela de Euclides”, L. Mlodinow) e "A coisa mais incompreensível sobre o Universo é que ele é compreensível" (“Galileu e os negadores da ciência”, M. Livio). Por fim, um fato incontestável: a um cientista como Einstein, todas as excentricidades eram permitidas.

Eurípides A. Silva

Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em Rio Preto.