ARTIGO

Memórias e inquietações: 174 anos de Rio Preto

Para mim, minha cidade vive em mim pelas memórias dos dias luminosos

por Simone Cristina Succi
Publicado há 4 horasAtualizado há 1 hora
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Nesta semana, São José do Rio Preto celebrou 174 anos. Para muitos de nós, comemorar a data e o dia de São josé é, inevitavelmente, atravessar o tempo pelas lembranças que fazem da cidade não apenas um território, mas um lugar querido de quem aqui viveu.

Para mim, que percorri suas ruas nas décadas de 80, 90 e 2000, Rio Preto sempre esteve em crescimento e mudança não apenas como um espaço urbano, mas como um espaço afetivo, onde muitas pessoas chegaram, outros tantos partiram e alguns recomeçaram. Nos fragmentos de diferentes histórias, ouvimos e vimos sonhos desfeitos e refeitos de vidas que se enraizaram e ajudaram a construir os modos de ser da nossa cidade.

Anos 80, uma simplicidade que hoje não alcançamos mais. A cidade era menor, mais silenciosa, e havia tempo para o convívio. As ruas eram lugares de encontro, e não apenas de passagem. As amizades e os amores se faziam no reconhecimento dos rostos e dos gestos, numa sensação de pertencimento que não precisava de nome, pois existia.

Já nos anos 90, o pulso de Rio Preto era mais intenso, mais vivaz. Seu crescimento trouxe novos moradores, movimento, diversidade e mais possibilidade de consumo e lazer. E mesmo com essa expansão, a cidade preservava um equilíbrio sutil entre a novidade que despertava e a identidade que preservava.

Já nos anos 2000, a modernização consolidou um novo momento. A tecnologia se fazia mais presente, o desenvolvimento econômico abria caminhos e a cidade se conectava a um mundo mais amplo. Nossa terrinha foi considerada uma das melhores cidades médias do Brasil em indicadores como saúde, educação e infraestrutura que, mesmo com desafios, trazia a sensação de que o progresso vinha acompanhado de qualidade de vida.

Hoje, ao completar mais um ano, muitas inquietações acompanham a vida da cidade: a população se preocupa com o aumento do custo de vida, pois, além de outros fatores, os reajustes tributários e o descaso na manutenção urbana em diversas áreas revelam a distância entre a administração pública e o cotidiano dos cidadãos.

Ainda que tais questões desgastem e entristeçam todos nós, elas não apagam a história construída, pois uma cidade feita de encontros e migrações não pode se basear apenas por uma fase administrativa um tanto infeliz, mas pela vida de quem a habita e a constrói todos os dias.

Assim, Rio Preto permanece, ainda que o tempo passe. Para mim, minha cidade vive em mim pelas memórias dos dias luminosos, pelos encontros que ficaram e pela vida vivida e transformada, mostrando que as lembranças são mais que saudade.

Celebrar 174 anos de Rio Preto é olhar o passado com gratidão, viver o presente com lucidez e sustentar, apesar de tudo, a esperança de que nossa cidade continue sendo, para muitos, um lugar de vida e de encontro para vida.

Simone Cristina Succi

Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.