Memórias e inquietações: 174 anos de Rio Preto
Para mim, minha cidade vive em mim pelas memórias dos dias luminosos

Nesta semana, São José do Rio Preto celebrou 174 anos. Para muitos de nós, comemorar a data e o dia de São josé é, inevitavelmente, atravessar o tempo pelas lembranças que fazem da cidade não apenas um território, mas um lugar querido de quem aqui viveu.
Para mim, que percorri suas ruas nas décadas de 80, 90 e 2000, Rio Preto sempre esteve em crescimento e mudança não apenas como um espaço urbano, mas como um espaço afetivo, onde muitas pessoas chegaram, outros tantos partiram e alguns recomeçaram. Nos fragmentos de diferentes histórias, ouvimos e vimos sonhos desfeitos e refeitos de vidas que se enraizaram e ajudaram a construir os modos de ser da nossa cidade.
Anos 80, uma simplicidade que hoje não alcançamos mais. A cidade era menor, mais silenciosa, e havia tempo para o convívio. As ruas eram lugares de encontro, e não apenas de passagem. As amizades e os amores se faziam no reconhecimento dos rostos e dos gestos, numa sensação de pertencimento que não precisava de nome, pois existia.
Já nos anos 90, o pulso de Rio Preto era mais intenso, mais vivaz. Seu crescimento trouxe novos moradores, movimento, diversidade e mais possibilidade de consumo e lazer. E mesmo com essa expansão, a cidade preservava um equilíbrio sutil entre a novidade que despertava e a identidade que preservava.
Já nos anos 2000, a modernização consolidou um novo momento. A tecnologia se fazia mais presente, o desenvolvimento econômico abria caminhos e a cidade se conectava a um mundo mais amplo. Nossa terrinha foi considerada uma das melhores cidades médias do Brasil em indicadores como saúde, educação e infraestrutura que, mesmo com desafios, trazia a sensação de que o progresso vinha acompanhado de qualidade de vida.
Hoje, ao completar mais um ano, muitas inquietações acompanham a vida da cidade: a população se preocupa com o aumento do custo de vida, pois, além de outros fatores, os reajustes tributários e o descaso na manutenção urbana em diversas áreas revelam a distância entre a administração pública e o cotidiano dos cidadãos.
Ainda que tais questões desgastem e entristeçam todos nós, elas não apagam a história construída, pois uma cidade feita de encontros e migrações não pode se basear apenas por uma fase administrativa um tanto infeliz, mas pela vida de quem a habita e a constrói todos os dias.
Assim, Rio Preto permanece, ainda que o tempo passe. Para mim, minha cidade vive em mim pelas memórias dos dias luminosos, pelos encontros que ficaram e pela vida vivida e transformada, mostrando que as lembranças são mais que saudade.
Celebrar 174 anos de Rio Preto é olhar o passado com gratidão, viver o presente com lucidez e sustentar, apesar de tudo, a esperança de que nossa cidade continue sendo, para muitos, um lugar de vida e de encontro para vida.
Simone Cristina Succi
Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.