Medicina no atacado
Estamos indo na contramão do mundo, do bom senso, da razão e da saúde

Matéria publicada no Diário, dia 20/1, noticia que o professor norte-americano Clinton Ernest Craddock de 43 anos, peregrinou por quatro dias seguidos por atendimento na UPA Norte, e os médicos foram incapazes de diagnosticar como apendicite - o que é inadmissível nessas circunstâncias, devido ao grau de gravidade. Cabe refletirmos: como estão sendo formados e como está sendo o critério para contratação destes profissionais, sejam médicos ou equipe de enfermagem, para cuidar de nossa saúde?
Vamos aos fatos: a previsão para 2030 é de que no Brasil haverá mais médicos do que enfermeiras(os). Atualmente o ativo mais lucrativo do ensino superior são os cursos de Medicina, cada vaga rende mais de R$ 1.000.000,00 ao longo do curso por aluno. Estão formando médicos em escala “industrial” sem preocupação com equipes estruturadas e a consequência disso é a precarização da profissão e da saúde do País.
Estudos recentes realizados na França, com dados atualizados até janeiro de 2026, confirmam uma correlação direta entre a proporção de médicos por paciente e a taxa de mortalidade nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), com aumento da mortalidade. Quando os pacientes são cuidados por médicos com carga de trabalho superior a 14 pacientes por médico, o índice de mortalidade dobra. Porém, quando havia mais de 2,5 pacientes por profissional da equipe de enfermagem, a mortalidade aumentava 3,5 vezes.
Estamos indo na contramão do mundo, do bom senso, da razão e da saúde, e o motivo, além do econômico, é populismo e politicagem. Querem forçar a formação e o aumento do número de médicos, como se fossem, da mesma forma, melhorar a qualidade da saúde. Seria como se aumentássemos o número de cozinheiros para acabar com a fome.
A saúde do Brasil jamais será solucionada aumentando o número de médicos de forma indiscriminada e sem planejamento, visando apenas a questão econômica. Prova disso é a recente publicação no dia 19/1 de que 1/3 dos cursos de Medicina no Brasil foram reprovados pelo Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) e que poderão sofrer punições como a restrição de acesso ao Fies ou mesmo a suspensão de vagas.
Outro fator, para fechar, é a falta de vagas para residentes, pois somente 1/3 dos médicos formados conseguem fazer a residência, com baixa remuneração e carga horária extenuante dos plantões a que são submetidos para pagarem suas contas e seu aperfeiçoamento.
Precisamos estar preparados para evitar que outros pacientes, como o professor norte-americano, padeçam nos prontos atendimentos.
André Luis Silveira Longo
Empresário, Rio Preto.