Maternidade sob silêncio
A mulher aprende que o lugar idealizado da maternidade é, muitas vezes, solitário

Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe. E o nascer dessa mãe, no entanto, nem sempre é suave.... e quase ninguém fala sobre o quanto é preciso morrer para que essa mãe irrompa da mulher que foi um dia.
Nasce uma mãe recém-chegada ao mundo, ainda tateando o próprio corpo, enquanto a mulher que ali existia, com sonhos e planos traçados em checklists impecáveis, é engolida por uma transformação sem manual.
Entre a explosão de ocitocina, o leite que desce e o choro que pede colo, essa mulher aprende rapidamente que o lugar idealizado da maternidade é, muitas vezes, profundamente solitário.
Há magia nesse espaço, é verdade. Mas há também cansaço, exaustão, medo e uma vontade imensa de chorar sem precisar explicar o porquê. A mãe que cuida de todos passa a descobrir, na prática, que quase ninguém está disponível para cuidar dela. E isso dói.
A escuta — essa necessidade básica de quem atravessa um terremoto emocional e físico sem saber bem como — raramente vem. E quando vem, costuma vir apenas de outras mães, igualmente cansadas e igualmente silenciadas.
Não é só porque não pedimos ajuda. É porque aprendemos, desde muito cedo, que pedir é inconveniente.
Vivemos em uma sociedade patriarcal e capitalista que romantiza a maternidade, mas rejeita qualquer demonstração de vulnerabilidade materna.
Então a mulher falante e desenvolta por vezes cede espaço a outra cabisbaixa e silenciada.
A mãe deve ser forte, grata, resiliente... uma grande guerreira. Deve sorrir. Deve dar conta. Demonstrar fragilidade soa como falha. E falhar, para uma mulher, nunca foi permitido.
É assim que nos perdemos. É assim que o silêncio se instala antes mesmo de termos palavras para nomear o que estamos sentindo.
Fomos ensinadas a não incomodar, a não ocupar espaço, a sermos agradáveis, mesmo quando estamos feridas. A maternidade escancara essa ferida como poucas experiências humanas são capazes de fazer. O corpo e a identidade mudam, o mundo exige produtividade enquanto a alma pede colo. E ainda assim, espera-se silêncio. Qualquer tentativa de comunicar onde dói é vista como reclamação e ingratidão.
Mas se a chegada de um filho nos fragiliza, ela também nos transforma. Nada provoca mais ruptura, mais consciência, mais potência. Talvez por isso seja tão necessário calar as mães. Uma mulher que fala da própria dor, da própria ambivalência e do próprio cansaço é uma mulher que começa a romper estruturas. E romper estruturas nunca foi permitido!
Escutar mães não é um gesto de gentileza. É político.
Jéssica Christan Silva e Soares
Mãe, advogada, membra do coletivo Mulheres na Política.