Mais que cantos e escadinhas
Insistem em nos silenciar, em fechar os caminhos, em nos deixar isoladas nas escadinhas

O dia é quente e todas as crianças tiveram a mesma ideia: arrastar os pais pra piscina. Enquanto a gente passa calor, as crianças brincam de pegar, os moleques, entre sete e dez anos, pulam, se perseguem, saem, correm. As meninas estão na escada. Uma delas não pode molhar o ouvido, então, todas optam pela brincadeira mais calma. Parceria, elas aprendem cedo.
Os garotos se atiram loucamente na água. Espirram por todos os lados, pulam por cima uns dos outros. Cuidado com as meninas! - um pai grita. O efeito é imediato: os meninos rebolam e gritam: "ai, as meninas", "chatas".
Essa cena foi no Dia das Mulheres e as crianças aprenderam uma lição: as meninas - tadinhas e chatinhas - são quebráveis e estão aqui para atrapalhar a aventura deles, os meninos destemidos, alegres, inconsequentes. Uma mãe grita da borda "cuidado, vai bater a cabeça na beirada!". Mais uma mulher, dessa vez mais velha, querendo frear o rolê.
Não tem Dia da Mulher que ensine. Campanha contra violência doméstica que dê conta. Não tem flor, nem bombom que impeçam que as meninas sejam atraídas para armadilhas arquitetadas por moleques em um apartamento de classe média. Ou ações que previnam a morte de mulheres apenas porque disseram “não”. Não há remédio isolado que cure o medo feminino de se posicionar sem provocar uma reação contrariada e, muitas vezes, violenta dos homens.
Começa na borda da piscina. Começa na quadra, na fala que enfatiza o quão delicada uma menininha é: eles são fortes, elas não conseguem. Os pesquisadores Alex Branco Fraga e Vinícius Pauletti Gonçalves escreveram a monografia “A quadra e os cantos: arquitetura de gênero nas práticas corporais escolares” (2004). Trazem já na introdução: “Numa das observações de campo (...), a distribuição e a movimentação de meninos e meninas neste espaço chamavam a atenção. Eles ocupavam praticamente a quadra inteira, correndo de um lado para o outro. As meninas, por sua vez, não corriam tanto e restringiam suas brincadeiras a um dos cantos, frequentemente ‘invadido’ pela brincadeira dos meninos. Ao ser perguntado sobre os motivos desse ‘desequilíbrio territorial’, um dos que participava da ‘correria’ respondeu sem hesitar: - ‘Ah, as meninas não precisam mais do que um canto’”.
Não tem nada para celebrar em um dia específico, por exemplo, quando todos os outros dias são dos homens. Da próxima vez, guardem suas rosas, comam seus chocolates. Não somos homenageadas nem no Dia da Mulher, nem no Dia das Mães. Temos, ao contrário, sido mortas porque nos disseram que não podíamos. Porque insistem em nos silenciar, em fechar os caminhos, em nos deixar isoladas nas escadinhas. Não quero qualquer homenagem. Quero só a segurança de que minhas meninas podem. Quero para elas, e para todas as meninas, a certeza que os meninos têm desde sempre: que o mundo é delas!
Ariana Pereira
Mãe, jornalista, pedagoga e parte do coletivo Mulheres na Política.