Diário da Região
ARTIGO

Latinha, linguiça calabresa, IA e ambiente seguro

Outras coisas têm o próprio tempo. Como a fermentação de um pão, que não dá para acelerar

por Henrique Fernandes
Publicado há 12 horas
Henrique Fernandes (Divulgação)
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Henrique Fernandes (Divulgação)
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Estou num ambiente seguro. Em casa. Já passa das cinco horas da tarde, de um sábado de janeiro de 2026. Lá fora cai uma chuva fininha. Gostosa. Não precisei ligar o ar para conseguir ficar aqui, na sala do meu apartamento. Abri uma latinha e cortei um pedaço de linguiça calabresa, vermelha, bem pequenininho, igual meu pai gostava, e meti pimenta de molho em cima. Usei a pimenta que o senhor Nilton me deu. É mais suave.

Como é bom tomar um negocinho e relembrar. Ter coisas boas para viver novamente, nem que seja na nossa infinita imaginação.

Ambiente seguro. Que diabos é um ambiente seguro? Hoje em dia, não estamos seguros em lugar algum, né? Achei curiosa a afirmação de um amigo esses dias. Disse que não ia mais a barzinhos com os amigos, porque preferia ficar em casa. Num ambiente seguro. Que a mulher não gostava, que podia dar briga. Gente do céu. Quer coisa mais danada para acabar com tudo do que uma merdinha de celular? Causa estragos e está presente até nos ambientes considerados mais seguros do mundo. O tempo passa. Nossa.

Lembro como se fosse hoje. Eu era estagiário de um jornal aqui em Rio Preto, o Dia e Noite, do Alexandre Imparato e do Rubens Celso Cri, quando ganhei meu primeiro celular. Era o Baby, da Telesp Celular. Fui cobrir o lançamento na cidade pelo jornal. O ano era 1999. Eu tinha 19 anos, estava no primeiro ano da faculdade, moleque de tudo, sem saber direito o que estava fazendo da vida. Só queria escrever. Depois, cobri muitas pautas de telefonia. Lembro que a assessora da Telesp, a Rosa (olha só, lembro o nome dela), ia até a redação levar os releases. Releases eram passados por Fax ou entregues pessoalmente nas redações.

Hoje está muito mais fácil ser jornalista. Creio que não só jornalista. A vida, no geral, melhorou com o passar dos anos. A tecnologia cria comunidades e encurta o que não precisa de tempo. Sim, é isso mesmo. Tem coisa que não precisa de tempo. Pode ser acelerada, colocada no 2x, no 2.5x. Áudios, textos, conversas por aplicativo, e-mails.

Mas outras coisas têm o próprio tempo. Como a fermentação de um pão, que não dá para acelerar. O pão continua pão. As relações continuam relações. A vida continua.

Somos humanos. Continuamos humanos, apesar de toda a tecnologia e da doideira do mundo. E, quanto mais vivo, mais gosto de olhar para trás. Infeliz de quem não tem história. Preocupado com IA? Não. Preocupado em não ter mais trabalho? Também não. Quem talvez precise se preocupar é a IA, lidando com gente que nasceu sem celular na mão, viveu pra cacete e fez acontecer sem porra nenhuma de ajuda. Bora usar tudo isso que a vida oferece.

E, olha, não estou num ambiente tão seguro assim, não. Já abri outra latinha.

Henrique Fernandes
Jornalista e assessor de imprensa