Justiça: universal ou seletiva?
A reação de muitas potências e organismos multilaterais revela hesitação e insuficiência

Nos primeiros dias do ano, o mundo assistiu a um fato ao mesmo tempo histórico e alarmante. A ação militar dos EUA na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e sua transferência para um tribunal em Nova York sob acusações de narcoterrorismo e conspiração para tráfico de drogas.
O episódio reacendeu um debate profundo sobre soberania, direito internacional e padrões duplos na chamada ordem mundial. Diversas lideranças e análises diplomáticas classificaram a operação como violação da soberania venezuelana e precedente perigoso para a estabilidade regional. A justificativa de “aplicação da lei” além-fronteiras, ancorada na guerra ao narcotráfico, é vista por muitos como expressão de uma lógica de hegemonia. Países poderosos se atribuem o direito de julgar e intervir, mesmo à custa dos princípios que afirmam defender.
Não se trata de um caso isolado. A política externa norte-americana acumula intervenções do Oriente Médio à América Latina, frequentemente legitimadas por discursos de combate ao terrorismo, defesa da democracia ou direitos humanos, enquanto interesses econômicos e geoestratégicos permanecem como pano de fundo.
Ao mesmo tempo, dentro dos próprios Estados Unidos, a divulgação de documentos ligados ao caso Jeffrey Epstein expôs conexões entre o financista condenado por tráfico sexual de menores e figuras centrais da política, do empresariado e das artes. Apesar do volume de informações e da gravidade das revelações, a resposta institucional tem sido lenta e fragmentada. Personalidades influentes seguem sem responsabilização clara.
O contraste é inevitável. Enquanto um presidente estrangeiro é capturado e julgado sob a bandeira da justiça internacional, escândalos envolvendo elites domésticas parecem enfrentar barreiras e silêncios.
Paralelamente, o mundo assiste à devastação em Gaza. Milhares de civis palestinos mortos, feridos e deslocados. Organizações de direitos humanos denunciam violações graves e pedem medidas urgentes. Ainda assim, a reação de muitas potências e organismos multilaterais revela hesitação e insuficiência. Intervenções rápidas ocorrem quando interesses estratégicos estão em jogo. Já diante do sofrimento massivo de populações civis, prevalecem notas diplomáticas e impasses.
A pergunta que emerge é incômoda. A justiça internacional é universal ou seletiva? Quando a soberania é relativizada conforme conveniências, quando elites poderosas escapam de consequências e quando crises humanitárias recebem respostas tímidas, instituições como a ONU e o Tribunal Penal Internacional parecem limitadas em sua capacidade de garantir igualdade perante a lei.
A reflexão precisa ir além da indignação moral. É necessário repensar a arquitetura global para que soberania, direitos humanos e justiça não sejam instrumentos de poder, mas princípios aplicados com imparcialidade.
Responder a essas perguntas é condição para que a ideia de justiça mundial não se transforme apenas em retórica, mas em compromisso real com a dignidade humana.
Carlos Alexandre
Presidente Municipal do Partido dos Trabalhadores. Formado em Administração Pública pela Federal de Ouro Preto.