Jornada 5x2, um bom começo
A escolha por trabalhar menos é legítima e necessária, mas ainda não estamos preparados; se optarmos pela jornada 4x3, teremos vários problemas a médio prazo

Está em debate a jornada de trabalho: deve ficar como está, adotar o 6x1, o 5x2 ou o 4x3. É evidente que o 6x1 favorece somente os empregadores enquanto o 4x3, a economia não suporta esse modelo devido à baixa produtividade e aos custos que serão adicionados. Acho que o 5x2, num primeiro momento, será o ideal, dadas as circunstâncias.
Trabalhar e produzir é muito importante; tão importante quanto isso é o lazer, o ócio e a saúde mental. Alguns estudos mostram que o brasileiro trabalha menos que a média mundial; o país ocupa posições inferiores em classificações de esforço, dadas a produtividade e à demografia das nações.
Uma pesquisa feita com dados de 160 países, considerando 97% da população global, mostra que trabalhadores de todo o mundo destinaram, em média, 42,7 horas semanais a atividades remuneradas em 2022 e 2023. Os brasileiros ocupados em empregos formais e informais dedicaram, nesse mesmo período, 40,1 horas semanais, em média, ao trabalho.
O estudo é do economista Daniel Duque, pesquisador da FGV/IBRE, a partir de um novo banco de dados global de horas trabalhadas organizado pelos economistas Amory Gethin e Emmanuel Saez.
Os pesquisadores utilizaram dados domiciliares reunidos pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), pelo Banco Mundial e pela União Europeia.
Neste trabalho — o mais amplo já construído — confirmam-se relações esperadas entre características demográficas, de renda per capita, de impostos e transferências realizadas por cada país, de um lado, e a quantidade de horas trabalhadas por seus cidadãos, de outro.
Sob qualquer desses critérios, o brasileiro trabalha menos do que seria esperado. O estudo ainda mostra que, na comparação direta com outros 86 países para os quais há dados por mais de duas décadas, o Brasil ocupa a 38ª posição em horas trabalhadas.
Quando se leva em consideração a quantidade de horas trabalhadas esperada de cada país a partir do seu nível de produtividade e de suas estruturas demográficas, o Brasil cai para o terço de menor esforço global: ocupa a 60ª posição entre 85 países, para trabalhadores com 15 anos ou mais.
A característica que melhor explica a quantidade de horas trabalhadas mundo afora é a produtividade dos trabalhadores; a nossa, em média, está crescendo 0,2% ao ano. Temos que melhorar muito, seja na qualificação técnica do trabalhador, na implantação de novas tecnologias, na abertura comercial, na concorrência entre os países, na desoneração de tributos, bem como na ampliação do crédito mais barato, principalmente para pequenas e médias empresas.
Os países ricos podem se dar ao luxo de trabalhar menos; é o caso da França. Lá se trabalha, em média, 31 horas por semana (78º lugar entre 87 países).
Nós estamos envelhecendo antes de ficar ricos; portanto, por enquanto, não podemos trabalhar menos.
Segundo esse estudo, no Brasil trabalha-se 1 hora e 12 minutos a menos por semana do que seria esperado, dado o já citado nível de produtividade e o seu perfil demográfico.
A escolha por trabalhar menos é legítima e necessária, mas ainda não estamos preparados. Se optarmos pela jornada 4x3, teremos vários problemas a médio prazo, como desemprego, aumento da informalidade, mais inflação e menos investimentos.
Mas não podemos abrir mão da jornada 5x2; esta cabe na realidade da nossa economia.