Isenção de IR: alívio que revela uma ferida aberta
O fato de 52% dos docentes se enquadrarem na isenção mostra a desvalorização profissional

A recente sanção da Lei nº 15.270/2025, que amplia a isenção do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para rendimentos de até R$ 5 mil mensais foi recebida com um misto de alívio imediato e reflexão melancólica no setor educacional. Segundo nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com a reforma do Imposto de Renda, 73,5% da categoria será beneficiada, sendo que para 52% haverá isenção total.
Em um cenário de arrocho salarial crônico e inflação que corrói o poder de compra, qualquer valor poupado no contracheque de quem sustenta os pilares do país é uma notícia que merece ser celebrada. Contudo, essa nova realidade tributária carrega uma ironia amarga que não podemos, de forma alguma, ignorar sob o manto do pragmatismo econômico.
O fato de que 52% da categoria docente se enquadra na faixa de isenção não é meramente um dado estatístico; é um sintoma alarmante da profunda desvalorização profissional. Enquanto médicos, engenheiros, juízes e outros profissionais de nível superior dificilmente celebrariam uma isenção voltada para quem ganha até R$ 5 mil, o magistério brasileiro enxerga nessa mudança um fôlego financeiro absolutamente vital para a sobrevivência. Isso escancara o abismo remuneratório vergonhoso que separa os professores de outras carreiras que exigem o mesmo rigor acadêmico, tempo de estudo e imensa responsabilidade social.
O professor brasileiro é, antes de tudo, um equilibrista. Ele investe em pós-graduações, muitas vezes retirando recursos do próprio orçamento familiar para adquirir livros e materiais pedagógicos mínimos, enquanto enfrenta jornadas exaustivas em salas de aula superlotadas. Quando o Estado anuncia que metade desses profissionais terá sua renda protegida do leão do IR, ele admite, ainda que de forma tácita, que a remuneração média da classe permanece em patamares inaceitavelmente baixos. A isenção funciona, portanto, como um curativo paliativo em uma ferida exposta: ela estanca o sangramento imediato do orçamento doméstico, mas passa longe de curar a patologia da falta de reconhecimento estrutural.
A verdadeira luta por uma educação de excelência passa, obrigatoriamente, pela construção de salários dignos que transformem a isenção do IR em um detalhe técnico, e não em uma tábua de salvação para fechar as contas do mês. Precisamos de planos de carreira robustos, investimentos em infraestrutura e do cumprimento rigoroso do Piso Nacional em todos os entes federativos. Valorizar o professor não é apenas livrá-lo de um tributo; é garantir que sua remuneração reflita a complexidade e a importância vital do seu ofício. Sem essa mudança de paradigma, continuaremos a ver nossos mestres celebrando pequenas vitórias tributárias enquanto o prestígio da profissão se esvai. O educador merece muito mais do que isenção; ele exige dignidade financeira plena e o respeito institucional que sua nobre missão impõe à sociedade.
Eduardo Alves de Lima
Professor de História e Pedagogo, Diretor Social do Sinpro Rio Preto e Região e Diretor Adjunto de Formação Política e Sindical da FEPESP.