Inutilidades
Apesar de o título chamar esses fatos de inúteis, admiro pessoas com memórias privilegiadas

“Laerte, você já passou por oito papas”. Foi a brincadeira de um amigo no dia em que completei 81 anos. Tudo isso? Vamos conferir: Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV. Mesmo número da Rainha Elizabeth que, como minha mãe, viveu 96 anos. Ela, a “Betinha”, assim chamada por minhas sobrinhas, nasceu no papado de Pio XI e morreu antes de Francisco. Encontrou-se com cinco deles. Nasci com Pio XII e teimo com Leão XIV que, desconfio, vai viver muito. Quase me encontrei com João Paulo II, mas só quase. Essa é outra história.
Esse tipo de exercício tem variações. Entr e brasileiros mais velhos, por exemplo, pode-se perguntar “a quantas ditaduras você sobreviveu? ”. Outra, mais fácil e menos provocativa “quantas Copas do Mundo você viu o B rasil ganhar? ”. No meu caso, todas, desde 1958. E poderíamos ter ganho mais umas duas ou três não fossem as mazelas de nosso futebol. Imagine se na Copa da Inglaterra, em 1966, tivéssemos mandado um combinado de Santos e Cruzeiro? Ou só o Santos? Que nada! Convocara m 44 e foi uma confusão. Mais ou menos como agora com o italiano.
Quem se lembra das medalhas de ouro individuais do Brasil? São 21 e o primeiro foi Guilherme Paraense, em Antuérpia (1920), em tiro ao alvo. A primeira coletiva foi de vôlei masc ulino em Barcelona (1992), bem antes da de futebol. Esta só veio nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Em compensação, como surpresa insuperável, fomos medalha de ouro na prova de slalom gigante do esqui alpino, nos Jogos de Inverno de Milão/Cortina. Essa proeza foi realizada por Lucas Pinheiro Braathen, meio brasileiro e meio norueguês. Faz menos de um ano, mas a maioria já esqueceu.
Na primeira vez que fui ao México, o companheiro do Cenpros me buscou no aeroporto e perguntou: “qual a escalação do Brasil de 1970? “. Antes que eu tentasse a memória, ele disparou do goleiro ao ponta esquerda (Félix a Tostão). Apesar de o título chamar esses fatos de inúteis, admiro essas pessoas com memórias privilegiadas. Minha memória nunca foi um prodígio. Como vai sua coleção de figurinhas? Nem se atreva a dizer que é algo inútil.
Dentre as inutilidades do ano, teremos eleições presidenciais. As eleições no Brasil, sabem aqueles nascidos na primeira metade do século passado, são de fato inúteis. Caras e supérfluas. Servem para bravatear: “somos uma das maiores democracias do mundo”.
Laerte Teixeira da Costa
Vice-presidente da UGT e ex-vereador em São José do Rio Preto.