RADAR ECONÔMICO

Indústria: avanços e desafios

No país e no Noroeste Paulista, o setor sente os juros altos, a pressão externa e a incerteza. Mas também encontra espaço para resistir e se reinventar

por Aldina Clarete D'Amico
Publicado em 02/09/2025 às 21:29Atualizado em 03/09/2025 às 11:45
Aldina Clarete D'Amico (Divulgação)
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Escrevo este artigo a partir de uma constatação simples, mas incômoda: a indústria brasileira já viveu dias melhores. Em 2024, conseguimos avançar, mesmo com turbulências, com crescimento de 3,8% na indústria de transformação e de 3,4% no PIB nacional. Já em 2025, a história é diferente.

No primeiro semestre deste ano, vimos o peso dos juros altos e das tarifas americanas caindo sobre nossas exportações. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reduziu a projeção de crescimento do setor de 2% para 1,7%, e a indústria de transformação deve fechar o ano em apenas 1,5% de alta. É pouco, especialmente se lembrarmos que no ano passado crescemos mais do que o dobro disso.

Olhando para São Paulo, e em especial para nossa região, a percepção não é muito diferente. A pesquisa “Rumos da Indústria Paulista”, divulgada pela Fiesp e Ciesp, mostra que 44,7% das empresas avaliaram o primeiro semestre como pior que o de 2024. Apenas 27,5% viram melhora, e os demais não notaram diferença. Ou seja: predomina a sensação de estagnação.

Para o segundo semestre, o humor dos empresários é marcado pela cautela. 44,4% estão neutros, 30,1% pessimistas e só 25,4% otimistas. E é bom lembrar: a pesquisa foi feita antes do anúncio da tarifa de 50% dos EUA sobre exportações brasileiras, que tende a deixar o cenário ainda mais difícil.

Na prática, o que vemos é uma economia crescendo puxada pelo agronegócio, que deve avançar 7,9%, enquanto a indústria perde espaço. Isso não é saudável a longo prazo. Um país sem uma indústria forte fica mais vulnerável, menos inovador e mais dependente das condições externas.

Por isso, sigo defendendo que precisamos enfrentar de frente as questões que travam o setor. A primeira delas é óbvia: a taxa de juros, que continua altíssima, em 15% ao ano. Sem alívio no crédito, muitas empresas não conseguem investir, contratar ou mesmo se manter. Outra questão é a política comercial, que precisa proteger e estimular a indústria sem cair no isolacionismo.

Aqui no Ciesp Noroeste Paulista, temos buscado não somente analisar os números, mas também agir. Um exemplo foi a vitória parcial que conquistamos na justiça, por meio de um Mandado de Segurança Coletivo. A decisão permitiu que empresas associadas deixem de pagar contribuição previdenciária sobre os primeiros 15 dias de auxílio-doença e auxílio-acidente, além de recuperar valores pagos indevidamente desde 2011. É uma medida concreta que ajuda o caixa das indústrias, em um momento em que cada real conta.

Entidades como a CNI, a Fiesp e a nossa representação, o Ciesp, também têm alertado para a necessidade de medidas concretas de apoio à indústria. Solicitamos a redução do custo do crédito, incentivos fiscais temporários para investimentos e programas de qualificação profissional. Segundo entendemos, ações assim podem ajudar a reduzir o peso dos juros altos e a reativar projetos de investimento que hoje estão parados por falta de financiamento.

Além disso, estudos de instituições de pesquisa como a FGV mostram que políticas estáveis e previsíveis são essenciais para recuperar a confiança dos empresários. Para os analistas, a combinação de juros mais baixos, espaço fiscal para investimentos e medidas de facilitação do comércio podem acelerar a retomada industrial. Sem essas mudanças, o setor tende a seguir em ritmo lento, com risco de perda de capacidade produtiva no médio prazo.

Portanto, encerro este balanço com uma mistura de alerta e esperança. O alerta é claro: se nada mudar na política econômica, seguiremos crescendo pouco e correndo riscos. Mas a esperança vem da capacidade de resistência que sempre marcou a indústria paulista e brasileira. Ainda temos espaço para avançar, inovar e conquistar novos mercados, desde que criemos as condições certas para isso.

Porque, no fim das contas, o que a indústria pede não é privilégio, e sim condições justas para competir, investir e gerar empregos.

Aldina Clarete D'Amico

É diretora-titular do Ciesp