Diário da Região
RADAR ECONÔMICO

Indústria em Retirada

A saída de indústrias não é mero reflexo das dinâmicas do mercado global; trata-se de uma consequência direta de um ambiente interno

por Maíra Victorasso Alvarenga
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Maíra Victorasso Alvarenga (Divulgação)
Galeria
Maíra Victorasso Alvarenga (Divulgação)
Ouvir matéria

O Brasil vive um movimento silencioso e preocupante. Nos últimos anos, empresas têm deixado o país discretamente: transferem fábricas para o exterior ou simplesmente escolhem investir fora em vez de expandir suas operações aqui. Enquanto o governo celebra números positivos de abertura de empresas, pouco se discute sobre o encolhimento da indústria de médio e grande porte, justamente aquela que sustenta empregos qualificados, arrecadação e inovação.

Segundo dados do IBGE, cerca de 60% das empresas brasileiras encerram suas atividades antes de completar cinco anos. Embora o país registre milhões de CNPJs ativos, grande parte deles corresponde a microempreendedores individuais. Já as indústrias de maior porte enfrentam um cenário mais complexo: custos elevados, burocracia persistente e crescente insegurança tributária dificultam qualquer planejamento de longo prazo.

A instabilidade institucional tem papel central nesse processo. A Lei nº 14.789/2023, ao alterar o tratamento tributário relacionado ao ICMS, modificou regras que sustentavam investimentos já em andamento. O resultado foi o aumento da carga efetiva sobre a produção e um ambiente ainda mais incerto. Empresas que investiram com base em normas anteriores passaram a operar sem clareza sobre o retorno esperado, um fator decisivo quando se trata de decidir onde produzir.

Diante desse cenário, países vizinhos têm se tornado destinos mais atraentes. O Paraguai, por exemplo, oferece sistema tributário simplificado, custos operacionais menores e maior previsibilidade regulatória. Não por acaso, empresas brasileiras passaram a transferir parte de sua produção para lá. É emblemático o caso da tradicional indústria têxtil que instalou sua primeira fábrica fora do Brasil após avaliar que produzir aqui havia se tornado menos competitivo. A própria direção da companhia apontou o ambiente tributário nacional como elemento determinante na decisão.

A saída de indústrias não é mero reflexo das dinâmicas do mercado global. Trata-se de uma consequência direta de um ambiente interno que penaliza quem produz, altera regras com frequência e impõe elevada incerteza jurídica. Enquanto o país priorizar soluções fiscais de curto prazo em detrimento de reformas estruturais que garantam estabilidade e previsibilidade, continuará assistindo à expansão de empresas brasileiras além de suas fronteiras e ao esvaziamento gradual de sua própria base produtiva.

Maíra Victorasso Alvarenga

Diretora de Indústrias da Acirp