Folia pra poucos, conta pra todos
Trata-se da política do espetáculo travestida de política pública

Fica revelada com nitidez uma das mais perversas contradições do atual governo municipal de São José do Rio Preto. Enquanto a cidade enfrenta abandono administrativo, precarização de serviços públicos e uma população cada vez mais sufocada por custos, impostos e perda de direitos, o prefeito bolsonarista coronel Fábio Candido decide promover um Carnaval milionário, investindo cerca de seis milhões de reais em shows sertanejos em pleno período carnavalesco, ao mesmo tempo em que relega os blocos da cidade, os coletivos culturais e os artistas populares locais à completa marginalização.
Trata-se da política do espetáculo, da lógica do marketing institucional, travestida de política pública, onde o palco caro substitui o cuidado com a cidade real, e o holofote substitui o compromisso social.
O Carnaval, que historicamente pertence à cultura popular, às comunidades, à diversidade e à identidade local, é transformado em vitrine de contratos, negócios e autopromoção.
Não se trata de incentivo à cultura, mas de instrumentalização do dinheiro público para construir imagem política, enquanto os verdadeiros produtores culturais do território, blocos, artistas independentes, coletivos comunitários e manifestações populares, são deixados à míngua, sem estrutura, sem apoio e sem reconhecimento.
Essa escolha política se torna ainda mais grave quando contrastada com outra realidade simultânea. O peso da nova planta genérica do IPTU, aprovada com distorções inacreditáveis, que oneram diretamente os trabalhadores, os pequenos comerciantes, as famílias da periferia e a classe média já pressionada economicamente.
No mesmo momento em que o governo municipal trata o dinheiro público com leviandade em eventos milionários, ele aperta o cerco sobre o bolso do contribuinte, transfere o custo da má gestão para a população e naturaliza a desigualdade tributária como se fosse um dado técnico inevitável, quando na verdade se trata de uma escolha política consciente.
De um lado, esbanjamento público. Do outro, arrocho fiscal. De um lado, espetáculo. Do outro, sacrifício popular. De um lado, contratos e palco. Do outro, IPTU abusivo e serviços precarizados.
É nesse cenário que se evidencia o contraste de projetos, enquanto o governo municipal investe em marketing e espetáculo, o vereador João Paulo Rillo, do PT, protocola o projeto de revogação da planta genérica do município, enfrentando diretamente as distorções que penalizam os trabalhadores e buscando corrigir uma injustiça estrutural que aprofunda desigualdades.
Trata-se de duas lógicas opostas de governar: uma (bolsonarista) voltada à autopromoção, ao show e à imagem; outra (petista) comprometida com justiça social, responsabilidade pública e proteção da população.
Não existe neutralidade nesse processo. Existe escolha. E a escolha do atual governo é clara. Privilegiar o espetáculo, desprestigiar a cultura popular, arregaçar o bolso do contribuinte e governar a cidade sem povo. Carnaval passa, os shows acabam, as luzes se apagam, mas a conta fica. E, como sempre, quem paga essa conta é o trabalhador.
Carlos Alexandre
Presidente do PT – Formado em Administração Pública pela Federal de Ouro Preto.