ARTIGO

Florestas que curam: a natureza e a saúde humana

Pesquisas monitoram a melhora de casos de pneumonia em pacientes com acesso a regiões de floresta

por Fábio Rogério de Moraes
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Que a natureza é uma fonte plural para a melhora de nossa saúde todos devem saber. Há muitas plantas usadas para tratar efeitos de doenças, como tomar boldo quando se tem má digestão, extrato de ginkgo biloba para melhorar a circulação sanguínea, a memória e a cognição, guaco para doenças que afetam o sistema respiratório, entre muitas outras. Além disso, muitos medicamentos tiveram seu princípio ativo derivado de plantas e hoje são produzidos e vendidos em todas as farmácias, como, por exemplo, o ácido acetilsalicílico, a Aspirina, que tem origem milenar na casca do salgueiro.

Mais recentemente, no entanto, o contato direto com a natureza vem sendo reconhecido como algo que ajuda a saúde humana. No Japão, há um termo médico prescrito pelos médicos: Shinrin-yoku, ou ainda, “banho de floresta”. É algo simples, usado desde os anos 80, que indica que devemos estar no meio da natureza de maneira a fugir da agitação dos grandes centros urbanos e, mais recentemente, dos celulares. Essa prática integra uma estratégia do sistema nacional de saúde desse país. O mesmo ocorre na Coreia do Sul, com mais de 70 “florestas de cura” reconhecidas nacionalmente.

Pesquisas recentes focam, além do efeito psicológico benéfico que esse contato com a natureza proporciona, o que é inquestionável, em outros impactos positivos. Por exemplo, ao longo da pandemia de Covid-19, cientistas da Itália notaram que cidades com maior quantidade de árvores por habitante tinham menos casos de Covid grave. Outras pesquisas monitoram a melhora de casos de pneumonia, asma, enfisema e bronquite em pacientes com acesso a regiões de floresta.

O imunologista Qing Li, da Escola de Medicina Nippon, em Tóquio, e presidente da Sociedade Internacional de Medicina de Floresta e Natureza (INFOM, na sigla em inglês), conduz um grupo que pesquisa os efeitos benéficos da prática de banho de floresta nos sistemas imunológico, nervoso e inflamatório. Seu grupo identificou que as pessoas reduzem o nível de hormônios do estresse, como adrenalina e cortisol, além da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos. Além disso, o grupo tenta medir os efeitos relacionados apenas com a prática, que são diferentes dos efeitos no corpo associados à atividade física e ao lazer.

Outro ponto estudado pelo grupo de Qing Li é o efeito das fitoncidas, que são moléculas exaladas pelas plantas junto com a umidade e responsáveis pelo aroma peculiar que sentimos quando estamos em meio à natureza. Nas plantas, as fitoncidas são responsáveis por protegê-las de bactérias, insetos e fungos, sendo parte do seu sistema imunológico. Em humanos, as fitoncidas também atuam nos protegendo contra vírus, bactérias e fungos e, como as pessoas estão inalando esses compostos durante o tempo em que permanecem na natureza, as doenças relacionadas às vias aéreas são beneficiadas. Além disso, as fitoncidas aumentam o número e a atividade de células do nosso sistema imunológico responsáveis por ações anticancerígenas.

A natureza, a mesma na qual nossos ancestrais moravam e se desenvolveram, parece conter mais essa ajuda para o nosso próprio bem-estar e saúde. Já passou da hora de olharmos para a natureza e pensarmos em sua preservação mais do que em quanto podemos lucrar com sua exploração. A vida é mais rica quando estamos inseridos na natureza.

Fábio Rogério de Moraes

Físico, Auxiliar de Pesquisa, IBILCE - UNESP.