Filigranas da verdade
A retórica da pós-verdade sequer dissimula o interesse escuso dos que a defendem

“Toda pessoa deveria aprender ciência assim como literatura.” Galileu in ‘Galileu e os negadores da ciência’, Mario Lívio, Ed. Record (RJ).
Mecanismos afrontosos de desinformação da opinião pública, como a rejeição a evidências consagradas pela Ciência (aos moldes do famigerado movimento antivacina) e a divulgação de pós-verdades (neologismo para “verdades convenientes”), além de sandices como as teorias da conspiração (negação do aquecimento global e outras), costumam acarretar grave polarização da sociedade, implicando em repercussões profundas que afetam a saúde pública, a democracia e a coesão e integração sociais. Especialmente quando impulsionados por interesses econômicos, políticos ou religiosos.
A negação da eficácia e segurança das vacinas, ressurgida brutalmente na pandemia de Covid-19, resultou numa perigosa queda das coberturas vacinais, com o risco de retorno de doenças imunopreveníveis erradicadas ou pelo menos sob controle no país. A hesitação vacinal é hoje uma das 10 principais ameaças à saúde pública global (OMS)!
A retórica da pós-verdade, por sua vez, sob o fascínio das “verdades convenientes”, sequer dissimula o interesse escuso dos que a defendem, exercendo forte influência tóxica na opinião pública, por se dar num contexto de irrelevância das “verdades factuais”, sua antônima. A pós-verdade, embora não conviva, necessariamente, com a mentira intencional, tem as fake news como uma de suas faces quando recorre, ardilosamente, a meias-verdades verossímeis e emocionais.
De resto, as teorias conspiratórias surgem de hipóteses especulativas visando disseminar crenças e valores, colocando em dúvida, geralmente sem evidências concretas, a lisura das versões oficiais acerca do sucesso ou fracasso de eventos importantes, públicos ou privados, com a premissa simplista de que costumam ocultar a verdade do público.
Posto isso, pela pertinência do tema, segue breve menção a Joseph Goebbels, um dos mais conhecidos manipuladores de massa da história, mestre das táticas de como distorcer e forjar a realidade, com o propósito de iludir populações inteiras. Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista e adepto da máxima “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdadeira”, Goebbels foi o mais influente aliado de Hitler, fazendo dele um ser messiânico, salvador do povo alemão. Daí seu nome encabeçar as listas dos mais hábeis e inescrupulosos influenciadores da opinião pública de todos os tempos.
Por fim, cabe lembrar alguns eventos tidos como farsa por “teóricos conspiracionistas”, como o assassinato de Kennedy, os sósias de Paul McCartney e Elvis Presley, a aterrissagem na Lua, os ataques de 11 de setembro, a origem do vírus da COVID-19 e o atentado contra Donald Trump, entre outras infinitas maluquices...
Eurípides A. Silva
Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em S. J. do Rio Preto.