Falta transparência nos aplicativos de transporte
A dúvida é: por que as empresas não esclarecem quais critérios são usados para treinar os algoritmos que calculam as tarifas?

A precariedade no transporte público no Brasil sempre foi notória, e tudo o que vier para acrescentar e melhorar a mobilidade urbana sempre será bem-vindo. A chegada do Uber no Brasil é um bom exemplo, mas, apesar da melhoria na mobilidade urbana, começa a apresentar problemas aqui e acolá, como veremos abaixo.
O Uber é uma plataforma de transporte compartilhado que oferece várias vantagens e desvantagens. Surgiu em 2009, em São Francisco, Califórnia, EUA. A intenção era criar uma solução de transporte mais eficiente e conveniente para os usuários. O nome “Uber” vem do alemão “über”, que significa “acima” ou “superior”. A ideia era criar uma experiência de transporte superior às dos táxis tradicionais.
No começo, era um serviço de transporte de luxo, com carros de alta qualidade e motoristas profissionais. Logo incluiu opções mais acessíveis e se tornou um sucesso global. Hoje, o Uber é uma das empresas de tecnologia mais valiosas do mundo, com presença global em mais de 70 países e 10 mil cidades.
Apesar das vantagens que oferece, como conveniência, flexibilidade, preços que já foram mais competitivos, segurança, opções de pagamento, aumento da mobilidade e oportunidade de emprego, traz também desvantagens, como desentendimentos com passageiros, preços dinâmicos, o que eleva os preços em horários de pico, condições de trabalho — os motoristas do Uber são considerados trabalhadores informais —, além de contribuir para o aumento do tráfego e da poluição em cidades congestionadas.
Talvez o maior problema desse aplicativo seja o preço dinâmico. Especialistas veem falta de transparência: algoritmos definem tarifas em tempo real usando critérios pouco claros. Já a empresa diz que o preço é calculado pela demanda. Com os preços variando em questão de minutos, a fórmula é defendida pela Uber e pela 99 como uma resposta à alta demanda.
São apontados possíveis abusos, uma vez que os consumidores não têm acesso às informações que resultam no preço final. Segundo as empresas, o preço dinâmico é calculado com base em variações que incluem condições climáticas, trânsito, eventos atípicos e até o histórico pessoal dos passageiros no aplicativo. O cálculo fica por conta de uma inteligência artificial. O algoritmo define, em tempo real, o valor máximo que considera que o usuário está disposto a pagar naquele momento.
Para Beatriz Kira, professora de Direito na Universidade de Sussex e doutora em Direito Econômico pela USP, a precificação dinâmica praticada por plataformas digitais não diz respeito à simples variação de preços por oferta e demanda. “Um dos grandes problemas é a falta de transparência sobre o que determina o preço. Isso não ocorre em mercados tradicionais, onde não há modelagem de preço em nível individual”, afirma.
A dúvida é: por que as empresas não esclarecem quais critérios são usados para treinar os algoritmos que calculam as tarifas?
O custo do transporte por aplicativo vem subindo consistentemente — em 2025, o setor acumulou inflação de 56,08% no Brasil, enquanto a inflação oficial em 2025 foi de 4,23%, portanto, uma diferença altíssima.
A Uber começa a sofrer processos nos EUA e no Reino Unido. No Brasil, a empresa já foi notificada pelos Procons de São Paulo e do Rio de Janeiro, em dezembro de 2025, para apresentar esclarecimentos sobre aumentos repentinos nas tarifas associadas a preços dinâmicos; alguns usuários relataram que corridas chegavam ao triplo do valor normalmente praticado.
A chegada dos aplicativos foi um passo importante para melhorar a mobilidade, mas o usuário não pode passar o percurso todo pensando, tentando adivinhar quanto pagará pelo deslocamento e se será um preço justo.