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ARTIGO

Eu aceito... mas ainda dói

Manter-se sensível em um mundo que empurra para o automático é resistência

por ​​​​​​Gilson Ribeiro .
Publicado há 3 horasAtualizado há 2 horas
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Há inquietações que não nascem da revolta, mas da consciência; não gritam, não rompem — apenas permanecem, silenciosas e constantes; não é ingratidão, pois quem sente isso já aprendeu a aceitar o que tem, vive com o suficiente, reconhece o que sustenta sua vida, há paz, ou algo próximo disso, mas não é completa.

Ao olhar para fora, a vida não fecha, há desproporções evidentes, sejam de dinheiro, saúde, oportunidade, dignidade e tantas outras; uns nascem no cuidado, já outros na dor. E inquieta perceber que, muitas vezes, quem tem mais… sente menos. É claro, não como regra absoluta, mas como sensação recorrente, como se a abundância criasse uma blindagem que afasta da realidade do outro, surge então a pergunta inevitável: - por quê?

Explicações existem — sociais, econômicas, históricas — mas nenhuma toca o ponto central, o impacto humano da desigualdade, e talvez essa pergunta não tenha sido feita para ser respondida, mas para não ser esquecida. O incômodo diante da dor alheia é sinal de que algo em nós ainda está vivo, afinal corremos o risco maior de normalizar o assunto.

Quando a desigualdade vira rotina, o olhar se acostuma, e o que antes chocava passa a ser apenas mais um fato, nesse momento, o ser humano começa a se perder, não por ter muito ou pouco, mas por deixar de sentir. A ideia de que os abastados têm o coração endurecido nasce da observação, mas não é absoluta; este endurecimento não está no que se possui, mas no que se perde, e esta abundância pode iludir, criando sensação de autossuficiência; a escassez pode ferir e fechar, e ambos os extremos afastam o homem de sua essência.

O que define não é a condição, mas a consciência, muitos passam a vida buscando simplicidade, enquanto outros, mesmo com pouco, já vivem aquilo que muitos jamais encontram. Isso não valoriza a falta — dor nunca foi e nunca será virtude — mas revela que o essencial não depende apenas do que se possui. O problema não está em conquistar, mas em se perder no caminho, e quando o homem se define pelo que tem, torna-se prisioneiro daquilo que deveria apenas servir.

Talvez a pergunta precise mudar: não mais “por que a vida é assim?”, mas “o que faço diante disso?”. Se não é possível entender tudo, ainda é possível escolher — escolher não se tornar indiferente, essa escolha, embora singela, é decisiva.

Manter-se sensível em um mundo que empurra para o automático é resistência, é preservar o que há de mais humano e no fim, talvez a vida nunca seja totalmente explicada, mas o maior erro não está na falta ou no excesso — está no momento em que, no meio disso tudo, o coração deixa de sentir.

​​​​​​Gilson Ribeiro

Contador, cronista, poeta e membro da Academia Maçônica de Letras e Cultura do Noroeste Paulista.