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ARTIGO

Escola: formar cidadãos ou produzir capital humano?

Entre metas, a educação corre o risco de perder sua principal missão: formar seres humanos

por Tiago Cesar Miguel Kapp
Publicado em 15/07/2026 às 18:26Atualizado em 15/07/2026 às 18:44
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Todos concordam que a educação transforma vidas. A pergunta que poucos fazem é: transforma para quê? Nas últimas décadas, a escola brasileira deixou de ser vista apenas como espaço de formação humana e passou a ser avaliada, cada vez mais, pelos resultados que produz. Índices, metas, rankings e desempenho tornaram-se palavras frequentes no cotidiano escolar. Mas, quando a educação passa a ser medida apenas por números, corre-se o risco de esquecer aquilo que deveria ser sua principal missão: formar cidadãos.

Nas últimas décadas, políticas educacionais influenciadas pelo neoliberalismo aproximaram a escola da lógica empresarial. O estudante passou a ser visto como capital humano, um investimento capaz de gerar produtividade econômica, enquanto o sucesso da educação passou a ser medido por indicadores e resultados. Avaliar é importante, mas quando a aprendizagem se resume a números, perde-se aquilo que nenhuma estatística consegue medir: o desenvolvimento do pensamento crítico, da ética, da criatividade e da cidadania.

O professor também sente os efeitos dessa transformação. Currículos padronizados, metas de desempenho e avaliações em larga escala reduzem sua autonomia e limitam sua atuação. Em vez de construir coletivamente o conhecimento, muitas vezes passa a cumprir protocolos previamente definidos. A escola corre o risco de ensinar para as provas, e não para a vida.

Isso não significa rejeitar inovação, tecnologia ou empreendedorismo. Pelo contrário. A escola deve preparar os jovens para o mundo do trabalho, desenvolver competências profissionais e estimular iniciativas empreendedoras. Entretanto, essas habilidades não podem substituir a formação humana. Ensinar a empreender é importante; ensinar apenas para produzir resultados econômicos é insuficiente.

Por isso, proponho que a própria lógica de mercado faça parte das discussões escolares. Os estudantes precisam compreender como surgem as políticas educacionais, quais interesses econômicos as influenciam e quais impactos produzem na sociedade. Debates em sala de aula poderiam colocar em diálogo diferentes concepções de educação: uma orientada pela lógica do mercado e outra fundamentada na formação crítica, inspirada em educadores como Paulo Freire e Dermeval Saviani. O papel do professor seria mediar essas discussões, incentivando a análise de argumentos, o respeito às diferenças e a construção de posições fundamentadas.

A democracia depende de cidadãos capazes de pensar, questionar e dialogar. Quando a escola ensina apenas a competir, perde a oportunidade de ensinar a compreender o mundo. A educação deve preparar para o trabalho, mas também para a cidadania. Afinal, o maior resultado que uma escola pode produzir não é um índice estatístico, e sim uma pessoa capaz de transformar a realidade em que vive.

Tiago Cesar Miguel Kapp

Empresário e estudante universitário – Olímpia.