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ARTIGO

Escola de Chicago e O Poderoso Chefão

Imigração, exclusão e ausência do Estado moldaram o crime organizado nos EUA

por Tiago Cesar Miguel Kapp
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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O Poderoso Chefão não é apenas um clássico do cinema; é um espelho incômodo da formação social dos Estados Unidos. Em The Godfather, dirigido por Francis Ford Coppola, a saga da família Corleone revela como violência, imigração e ausência do Estado se articulam na produção de formas alternativas de poder.

A chegada massiva de italianos aos Estados Unidos, no final do século XIX, esteve longe de representar uma integração harmoniosa. Tratou-se de uma experiência marcada por pobreza, preconceito e exclusão. Em cidades como New York City e Chicago, esses imigrantes foram empurrados para áreas urbanas degradadas, onde o Estado era ausente ou atuava de modo seletivo. Entre 1880 e 1920, cerca de quatro milhões de italianos — sobretudo do sul da Itália e da Sicília — chegaram ao país nessas condições, organizando-se em bairros étnicos como os Little Italys.

Esses espaços garantiam trabalho, moradia e pertencimento, mas também favoreciam o surgimento de estruturas paralelas de poder. Nesse contexto, a máfia se consolidou não apenas como prática criminosa, mas como rede de proteção e mediação social, adaptando ao cenário americano mecanismos já presentes na Sicília.

É nesse ponto que a Chicago School of Sociology oferece uma leitura decisiva. Autores como Robert E. Park e Ernest Burgess compreenderam a cidade moderna como um laboratório social, no qual desigualdades e tensões geram novas formas de organização. A teoria das “zonas concêntricas” evidencia como áreas de transição concentram instabilidade e favorecem práticas desviantes, enquanto Edwin Sutherland demonstra que o crime é aprendido nas relações cotidianas, por meio da associação diferencial.

Um conceito central dessa escola é o de desorganização social. Segundo essa perspectiva, quando comunidades passam por mudanças rápidas — como imigração em massa, pobreza e mobilidade constante — as instituições tradicionais (família, escola, igreja) perdem força. Isso abre espaço para o surgimento de estruturas paralelas de controle social.

A violência, portanto, não é aleatória. Em contextos como o da Prohibition in the United States, ela se torna instrumento de regulação econômica e territorial. O poder dos Corleone expressa menos um desvio moral do que uma adaptação racional a um sistema profundamente desigual.

Ao acompanhar Michael Corleone, percebe-se que o chamado “sonho americano” pode exigir escolhas brutais. O filme sugere algo perturbador: o crime organizado não está fora do sistema, mas dialoga com ele.

Reduzir O Poderoso Chefão a entretenimento é ignorar sua potência interpretativa. A obra é, ao mesmo tempo, arte e documento sociológico. À luz da Escola de Chicago, revela que a América não apenas produziu sonhos — também marginalizou muitos daqueles que vieram realizá-los.

Tiago Cesar Miguel Kapp

Empresário e estudante universitário – Olímpia.