Entre o cuidar e o existir
Acabamos ficando em segundo plano dentro de nossas próprias vidas

Durante muito tempo aprendemos que ser mulher significava, antes de tudo, cuidar. Cuidar da casa, da família, dos filhos, das relações. O cuidado sempre esteve no centro da experiência feminina e, em muitos aspectos, ele é uma das nossas maiores forças. Há algo profundamente humano na capacidade de perceber o outro, de acolher, de sustentar a vida ao redor.
O problema começa quando o cuidado deixa de ser uma escolha e passa a ser a única forma permitida de existência.
Crescemos acreditando que precisamos dar conta de tudo: da casa organizada, da rotina dos filhos, das demandas do trabalho, das necessidades emocionais de quem está por perto.
Nesse processo, algo muito silencioso costuma acontecer: acabamos ficando em segundo plano dentro de nossas próprias vidas. Não é raro ouvir mulheres dizendo que sentem culpa ao descansar, ao desejar tempo para si mesmas ou ao tentar cultivar interesses que não estejam diretamente ligados às suas funções de mãe, profissional ou companheira. Como se existir por si mesma fosse, de alguma forma, um luxo ou um excesso.
Mas já está na hora de ampliarmos essa conversa.
Cuidar não precisa significar desaparecer.
Discutir nosso direito ao descanso, ao desejo e à autenticidade não é negar a importância do cuidado. Ao contrário: é reconhecer que o cuidado mais saudável nasce de uma vida que também está sendo vivida.
Uma mulher que consegue escutar a si mesma, respeitar seus limites e manter algum espaço para aquilo que lhe dá alegria tende a cuidar dos outros de um lugar mais inteiro e menos exausto. Por isso, falar sobre existir enquanto mulher também é falar sobre pequenos gestos de retorno para si mesma, como recuperar algo que nos dá prazer, autorizar momentos de descanso sem culpa, nomear desejos que foram sendo adiados e criar espaços de autenticidade em meio à rotina.
Pequenos passos como fazer uma caminhada, um café em silêncio, um tempo para ler, ou simplesmente não fazer nada já nos ajudam a reconstruir nosso existir.
São pequenos gestos que lembram algo essencial: a nossa vida enquanto mulher também importa!
Talvez o desafio do nosso tempo não seja escolher entre cuidar ou existir, mas aprender a existir de forma plena enquanto cuidamos.
Jéssica Christan Silva e Soares
Mãe, advogada, membra do Coletivo Mulheres na Política de São José do Rio Preto - SP.