Entre a fé e a violência
Para inúmeras mulheres evangélicas, a primeira busca por ajuda ocorre dentro da igreja

A violência doméstica não escolhe classe social, idade ou religião. Mas os dados recentes revelam uma realidade que precisa ser enfrentada com coragem, responsabilidade e humanidade. Segundo pesquisa realizada em 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, 42,7% das mulheres evangélicas entrevistadas disseram ter sofrido violência praticada por marido ou ex-marido.
Recentemente, viralizou o vídeo de uma pastora orientando mulheres evangélicas a “pararem de orar por maridos agressores e começarem a denunciar”. A fala provocou intenso debate nas redes sociais. Enquanto muitos tentaram reduzir a discussão a disputas políticas ou acusações de promoção pessoal, o ponto central acabou sendo desviado: mulheres estão sofrendo violência e, muitas vezes, sendo silenciadas dentro dos próprios espaços religiosos.
Os discursos religiosos e os valores transmitidos em determinadas comunidades de fé podem, ainda que involuntariamente, contribuir para a manutenção de relacionamentos violentos. Isso ocorre quando interpretações distorcidas sobre submissão feminina, preservação do casamento a qualquer custo e perdão irrestrito são utilizadas para silenciar mulheres em situação de violência. Em muitos casos, a vítima passa a acreditar que denunciar o agressor representa falha espiritual, falta de fé ou desobediência religiosa.
É preciso compreender que, para inúmeras mulheres evangélicas, a primeira busca por ajuda ocorre dentro da igreja. Antes da delegacia, da advogada ou do atendimento psicológico, elas procuram seus líderes espirituais. Buscam acolhimento, orientação e proteção. No entanto, em muitos casos, recebem como resposta apenas a recomendação de “orar mais”, “preservar o casamento” ou “ter paciência com o marido”.
Fé jamais pode ser utilizada como instrumento de manutenção da violência. Violência doméstica não é problema espiritual e não se resolve apenas com oração. Violência é crime. E crime deve ser denunciado.
Quando discursos ideológicos tomam o centro da discussão, a vítima volta a ser invisibilizada. O foco precisa estar na proteção da vida das mulheres e de seus filhos. Falar sobre violência doméstica dentro das igrejas não é atacar a religião. É justamente reconhecer que a fé deve ser espaço de acolhimento, proteção e dignidade, nunca de silêncio e sofrimento.
Nayara Ferreira
Advogada. Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB Rio Preto. Colunista na CBN. Integrante do coletivo Mulheres na Política.