Eleições: propostas ou ideologia?
O fato de se ter uma ideologia como única razão política parece ser bastante danoso ao país

Houve um tempo no Brasil em que as eleições eram marcadas pelo debate em torno de propostas, nos idos das décadas de 80 e 90, período da redemocratização. Na de 1989, o foco do debate era combater a hiperinflação e as desigualdades; na de 2006, o foco foi o desenvolvimentismo vs. austeridade. Evidentemente, as mazelas eram expostas também, e as discussões em torno dos escândalos pessoais eram trazidas para o debate, mas mantinha-se o foco nas propostas.
Se isso foi virtuoso ou não é uma outra história. Mas era possível observar melhor qual seria o caminho que o país iria seguir. Porém, já nesse período iniciou-se a sanha da apuração rápida, uma corrida como se fosse a "corrida do ouro". Sem desmerecer a conquista, tal fato parece ter se tornado um "rito sagrado", que só pode ser feito de um jeito. Houve discussões a respeito, mas nenhuma mudança ocorreu.
Nos dias recentes, duas eleições ocorreram em países vizinhos. Vimos que, apesar dos problemas semelhantes em termos de agenda política e propostas, o processo eleitoral parece ser muito diferente do que ocorre no Brasil. Não primam pela pressa, mas pela maior demonstração de transparência possível, e isso é bastante válido quando se constata que os índices de analfabetismo funcional giram em torno de 11% a 15% nos dois países vizinhos que recentemente finalizaram suas apurações. Se lá isso é um fato importante, no Brasil seria igualmente, pois o semianalfabetismo atinge 29% da população, segundo os dados oficiais.
Nos países vizinhos, os debates parecem ser semelhantes aos dos dias atuais no Brasil, onde a ideologia política prevalece em detrimento das propostas efetivas de uma agenda positiva que busque, por exemplo, melhorar a economia e a autonomia das pessoas, por meio de uma melhor educação e de apoio aos pequenos negócios, que, no final, são o que sustenta o país.
Debater questões pessoais certamente traz para todos os eleitores a possibilidade de conhecer melhor o caráter e o comportamento de cada candidato e, com isso, ter ao menos uma noção de se verdadeiramente o candidato tem comprometimento com alguma agenda política, qual é seu verdadeiro viés ideológico e se a política ideológica é uma agenda que favorece o país.
O fato de se ter uma ideologia como única razão política parece ser bastante danoso ao país e, por isso, é importante debater ideias e propostas para que a população tenha clareza do que cada candidato propõe fazer. Assim, cada pessoa decide segundo a sua consciência, e o pleito deve ocorrer de maneira transparente e sem pressa, pois quem for eleito terá quatro anos para implantar suas propostas de políticas públicas.
Se fizer isso com seriedade, já vimos recentemente que o Brasil é um gigante, e basta ter boa vontade e foco na execução de boas práticas e propostas para que a nação prospere e liberte o povo da escuridão e do medo. Que essas eleições voltem aos debates, como já ocorreu em tempos não tão distantes.
Adão Moraes
Administrador – Gestor de Negócios Imobiliários.