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É macaco véio ou paca véia?

O silêncio ensurdecedor do poder público um ano após o caso de racismo com Fábio Marcondes

por Claudionora Elis Tobias
Publicado há 12 horasAtualizado há 12 horas
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Neste mês, completamos um ano desde o episódio do vice-prefeito de São José do Rio Preto, Fábio Marcondes, que se viu envolvido em um caso flagrantemente de racismo. O que deveria ser um marco de mudanças, uma cidade referência que se preocupou em combater o racismo, se transformou em um ciclo de silêncio ensurdecedor por parte do poder público e da Câmara Municipal. Este silêncio ecoa fortemente em um momento em que os casos de racismo estão violentamente em ascensão, como demonstrado pelo recente ataque ao jogador Vinicius Junior, que recebeu apoio de figuras como Kylian Mbappé, que testemunhou em campo o crime.

A indiferença das autoridades diante de situações tão graves levanta questões sobre o verdadeiro compromisso dessas instituições com a sociedade. O racismo é uma chaga que precisa ser combatida, e a falta de posicionamento do poder público não apenas deslegitima as vozes das vítimas, mas também perpetua um ambiente de impunidade e desrespeito, como um áudio com cunho capacitista e racista envolvendo uma das secretarias. É alarmante que, em meio a tantos casos de discriminação, as autoridades ainda não tenham apresentado uma resposta contundente ou um plano de ação eficaz.

A responsabilidade do estado vai além de uma simples declaração, que não aconteceu. É necessário que haja um compromisso real com políticas antirracistas, de inclusão, educação e respeito à diversidade. O silêncio atual pode ser interpretado como uma conivência com as práticas racistas, o que é inaceitável. O Legislativo, como representante da população, deve ser o primeiro a se manifestar contra qualquer forma de discriminação e a promover discussões que visem a erradicação do racismo em suas diversas formas.

Neste sentido, a sociedade civil também tem um papel fundamental. É preciso que a população se mobilize, exija respostas e se faça ouvir. A pressão social pode ser um catalisador para mudanças significativas. Organizações não governamentais, coletivos e cidadãos devem unir forças para que a luta contra o racismo ganhe visibilidade e força. Somente assim, poderemos esperar que o poder público não apenas rompa o silêncio, mas também tome atitudes concretas que demonstrem seu compromisso com a igualdade e a justiça social.

Portanto, neste momento de reflexão, é essencial que todos questionem: até onde vai o compromisso das autoridades com a sociedade? O silêncio não é uma opção. Não podemos acreditar que o poder nesse país não nasce das leis. A população exige ações para construir um futuro onde o racismo não tenha espaço, e seja combatido por quem detém o poder. Que o ano que se inicia seja um marco de transformação e que o município atenda à demanda por justiça e respeito, que sejamos reconhecidos pela excelência na educação, na saúde, na tecnologia, e não pela cidade em que o vice-prefeito se referiu a um trabalhador como “paca veia”.

Claudionora Elis Tobias

Presidente do Conselho Afro, diretora da OAB, líder do Comitê de Igualdade Racial Grupo Mulheres do Brasil - Núcleo de Rio Preto e membra do Coletivo Mulheres na Política.