Acabou o Carnaval: e a estratégia começa quando?
Comunicação estratégica sustenta preço, protege reputação e fortalece autoridade

Todo ano é a mesma coisa. O Carnaval termina, os blocos vão embora, o glitter some (ou quase) e alguém repete a frase: “agora o Brasil começa”.
Sempre achei curioso. Porque, se o Brasil só começa agora, significa que alguém já estava trabalhando antes. E, no mundo empresarial, esse “alguém” normalmente é o concorrente.
Enquanto muitos estão organizando a agenda, respondendo os e-mails acumulados e prometendo que “agora vai”, o mercado não está esperando. Ele já está se reorganizando. Clientes estão comparando. Fornecedores estão avaliando. A concorrência está se mexendo.
E é aqui que entra um ponto pouco discutido: comunicação estratégica não começa quando sobra tempo. Começa quando se entende que ela é parte do negócio — não enfeite dele.
Há uma diferença enorme entre estar presente e estar posicionado.
Estar presente é postar. Estar posicionado é ter direção.
Estar presente é divulgar promoção. Estar posicionado é construir percepção de valor.
Empresas não perdem mercado apenas por falta de qualidade. Perdem porque o mercado não percebe essa qualidade com clareza. E percepção, gostemos ou não, é construída.
Especialmente em regiões economicamente fortes, com tradição industrial e empresarial consolidada, o desafio já não é apenas produzir bem. É comunicar com inteligência.
Qualidade virou pré-requisito e posicionamento virou diferencial. O erro mais comum das empresas médias não é “não fazer comunicação”. É fazer comunicação fragmentada. Um post aqui, uma campanha ali, uma ação isolada acolá — sem linha narrativa, sem coerência, sem estratégia de longo prazo.
É como montar um quebra-cabeça usando peças de caixas diferentes. Até pode parecer bonito à primeira vista, mas dificilmente forma uma imagem clara.
Comunicação estratégica é ativo invisível. Ela sustenta preço, protege reputação, facilita negociação e fortalece autoridade. Não aparece no balanço patrimonial, mas pesa — e muito — na decisão de quem compra, contrata ou investe.
2026 não será definido por quem falar mais alto, mas por quem falar com mais clareza e consistência. Então talvez a pergunta certa, agora que “o ano começou”, não seja apenas quais metas bateremos. Mas qual narrativa estamos construindo.
Porque metas são importantes, mas percepção sustentada é o que garante longevidade.
O Carnaval passou, mas a disputa por relevância começou faz tempo.
Allexandre Silva
Jornalista