Do escambo aos ativos financeiros

Em outra oportunidade, mencionei em um dos meus artigos que a Economia se relaciona com várias outras ciências. De maneira mais frequente, é fácil identificar essa relação com a Matemática, com a Estatística e com a Política, por exemplo. No entanto, a Economia guarda, igualmente, estreita relação com a Geografia, com a História e com a Filosofia etc. Falando em Filosofia, os filósofos estudaram a escassez e os critérios de escolha feitos por indivíduos muito antes da Economia existir como ciência. O próprio Adam Smith, conhecido como “pai da Economia moderna”, sempre foi considerado um filósofo moral, não um economista.
Desta forma, fica evidenciado que a área de abrangência dos estudos econômicos é enorme e multidisciplinar. Há estudos relacionados à tomada de decisão de indivíduos e instituições; há estudos sobre como países lidam com recursos escassos; há estudos que resultaram em teorias capazes de explicar tudo que fez e continua fazendo parte do ambiente econômico. E é por causa dessa abrangência que a disciplina de Economia se faz presente em cursos de áreas distintas do conhecimento e, não por acaso, a análise de questões econômicas é indispensável para instituições financeiras, grandes corporações, setores produtivos em geral e governos.
No caso específico da docência, recorrentemente, menciono aos discentes que o ensino de Economia não pode, e nem deve, ser dissociado do contexto histórico. Cada etapa da evolução do pensamento econômico ou cada problema de natureza econômica já enfrentado pela sociedade se materializou dentro de um contexto histórico. E foi a maneira pela qual esse contexto se desenvolveu ao longo do tempo que as criações e/ou soluções para os problemas econômicos foram apresentadas. Um bom exemplo para ilustrar a impossibilidade dessa dissociação é a moeda. Seria muito confortável para qualquer professor de economia abordar, na aula sobre Economia Monetária, o tema “moeda” simplesmente como um tipo de ativo financeiro, enfatizando-se, apenas, que a moeda se diferencia de outros tipos de ativos financeiros em razão de possuir liquidez imediata. Mas, como é possível privar os discentes de conhecer todos os estágios que antecederam a criação da moeda até torná-la o que ela é, atualmente? Seria correto omitir dos alunos o fato de que, antes de ser possível tornar uma moeda física em um registro eletrônico, a sociedade satisfazia as demandas econômicas básicas por meio do escambo?
Falando em escambo, de vez em quando algum aluno afirma que deveria ter sido bom viver numa época sem a necessidade de usar moeda. É nessa hora que apresentar o contexto histórico transforma-se em um poderoso instrumento didático, um verdadeiro convite à reflexão: imagine viver em uma sociedade rural, na qual todos produziam os mesmos alimentos e criavam os mesmos animais. Para que a troca direta ou escambo se concretizasse, seria necessário que houvesse uma “dupla coincidência de desejos”, ou seja, os negociantes precisariam ter algo de interesse mútuo. Caso contrário, nada feito. Além disso, se a moeda não tivesse sido criada e evoluído para o formato que conhecemos, como ficaria a situação de uma pessoa que quisesse pão e só tivesse um carro para oferecer na troca? Seria uma troca justa?
Curiosamente, e por mais incrível que possa parecer, há lugares no mundo (incluindo o Brasil) em que ainda se pratica o escambo. Não porque não exista moeda nesses lugares, é claro, mas, porque em algumas regiões há pouca circulação ou impossibilidade de reserva monetária. E há lugares, também, como em Assam, na Índia, cujo povo tribal chamado “tiwa”, troca produtos em forma de escambo na “Jonbeel Mela”, uma antiga e tradicional festa para preservar a harmonia e a irmandade entre tribos.
Parece estranho dizer isso, mas, talvez o mundo e suas tribos modernas estejam precisando de menos ativos financeiros e mais de outras tantas Jonbeel Mela.
Ademar Pereira dos Reis Filho
Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro e docente da Fatec Rio Preto