Desigualdade Social
Será que queremos continuar como exportadores de produtos primários de baixo valor agregado e importadores de tecnologias?

Um dos principais desastres brasileiros é a desigualdade social que crassa a sociedade nacional. Somos um país caracterizado por uma das naturezas mais extraordinárias do globo terrestre, somos detentores de clima agradável, recursos naturais que enchem os olhos de outras nações, somos detentores de um verdadeiro ecossistema de recursos naturais e sustentáveis, estamos no centro das discussões contemporâneas referentes à energia limpa e sustentabilidade, possuímos recursos minerais estratégicos para a economia do século XXI e, mesmo assim, somos um dos países mais desiguais do mundo, uma verdadeira vergonha internacional.
Nesta trajetória de atraso e dependência estrutural, desde o descobrimento somos uma nação marcada pela pilhagem e pela exploração constantes, mais de trezentos anos de extração econômica pela metrópole europeia, somos uma nação constituída pela escravidão e pela espoliação do trabalho negro, uma classe social fortemente marginalizada e marcada por salários aviltantes, péssimas condições de vida, habitação degradante e indigna, desprovida de saneamento básico e das mínimas condições de sobrevivência, além de uma exploração constante, tudo isso gera uma nação marcada pela atraso institucional e civilizacional, com uma pequena “elite” detentora de benefícios hereditários, isenções tributárias e subsídios fiscais que servem para reproduzir essa situação de indignidade e vergonha generalizada.
Dados recentes divulgados pelo Relatório da Desigualdade Global, divulgado em 2025 pelo World Inequality Lab, liderado pelo economista francês Thomas Piketty, colocam o Brasil na quinta posição entre os 216 países em desigualdade de renda, uma situação vergonhosa internacionalmente, mostrando que, mesmo sendo detentores de grandes riquezas naturais e minerais, não conseguimos transformar nossas riquezas em melhorias substanciais de vida para nossa população, muito pelo contrário, nossa condição destacada no relatório evidencia nosso secular atraso institucional, nossa acomodação social e a incapacidade de indignação.
Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que o Brasil apresentou um aumento de 1,3% no Índice de Gini, indicador utilizado para medir desigualdade, de 2024 e 2025. Mesmo assim, somos, há décadas, um dos países mais desiguais do mundo e não temos sinais de sair dessa posição. Numa sociedade marcada por grandes transformações estruturais, com a tecnologia ganhando espaço na sociedade e onde a desigualdade cresce aceleradamente na sociedade global, o Brasil precisa criar novos instrumentos para reduzir os indicadores de desigualdade social que impactam sobre a sustentabilidade dos grupos sociais. Sem isso, as crises em curso na sociedade contemporânea podem gerar constrangimentos e podem levar a sociedade a conflitos inevitáveis.
O Brasil conseguiu perder o bônus demográfico e, infelizmente, não conseguimos levar a sociedade brasileira a um tão sonhado desenvolvimento econômico, com melhoras significativas para a população. Os desafios são elevados e reais, reformar a previdência é urgente e atacar os privilégios de castas incrustados no Estado, além de aumentar os investimentos em educação básica, fomentar a pesquisa, ciência e a tecnologia, sendo esses os grandes motores de desenvolvimento das nações. Mas antes de tudo, precisamos compreender o que queremos nas próximas décadas. Será que queremos continuar como exportadores de produtos primários de baixo valor agregado e importadores de tecnologias?
Neste cenário de grandes incertezas, as nações estão buscando reconfigurar seus setores econômicos e produtivos e angariar uma maior envergadura para encarar os desafios contemporâneos. Passou da hora de encararmos a desigualdade que permeia a sociedade brasileira, limita o desenvolvimento e corrobora para nosso atraso civilizacional.
Ary Ramos da Silva Júnior
Bacharel em Ciências Econômicas e Administração, Mestre, Doutor em Sociologia e professor universitário.