Desafios e rumos do agro em 2026
Clima mais instável, políticas para aumentar o consumo de biocombustíveis e a questão do seguro rural estão entre os principais temas da agenda do agro

O novo ano começa com uma agenda complexa e desafiadora para o agronegócio brasileiro. Um tema que cada vez fica mais importante é o avanço dos riscos climáticos. As projeções meteorológicas indicam um ano marcado por chuvas irregulares, veranicos prolongados e maior probabilidade de eventos extremos. Não se trata mais de uma ameaça distante, mas de um fator que já impacta a produção, a renda e preços de alimentos.
Esse cenário reforça a urgência de fortalecer o seguro rural. A política atual ainda está longe de atender o tamanho e a diversidade do agro brasileiro. A cobertura é limitada, a oferta é concentrada e o nível de proteção não acompanha a escala dos riscos. Sem avanços nesse campo — e sem ampliar instrumentos complementares, como fundos de catástrofe, hedge climático e previsão meteorológica de precisão —, a segurança alimentar fica ameaçada. A gestão hídrica, por sua vez, também vai demandar atenção e estímulos aos investimentos, visando uma irrigação eficiente. Outros focos importantes serão armazenagem e práticas regenerativas.
Outro eixo decisivo para 2026 será a continuidade no incentivo aos biocombustíveis, para cumprir com a agenda da transição energética, diminuindo o uso dos fósseis. A aprovação da Lei do Combustível do Futuro e o início do Programa Mover criaram uma base relevante, mas é preciso pensar e colocar em prática novas ideias. O Brasil tem enorme capacidade de ampliar o uso de etanol e biodiesel; porém, a adoção segue tímida. Apenas 23% dos carros flex do país abastecem com etanol — índice que sobe para 40% em São Paulo, mas permanece muito baixo no restante do território nacional.
Para ampliar o uso do etanol, será preciso investir em comunicação, competitividade e infraestrutura. Um bom exemplo vem do agreste alagoano, em Delmiro Gouveia, onde a Usina Caeté inaugurou em 2025 o “Posto Caeté”, que comercializa etanol 100% puro, direto da usina, sem intermediários, para uma população que, apesar de próxima dos canaviais, não tinha acesso ao biocombustível!
Além das questões climáticas e energéticas, o produtor rural enfrentará um ambiente econômico mais apertado. O cenário de juros ainda elevados, custos pressionados e volatilidade cambial deve limitar margens ao longo de 2026. Isso exigirá planejamento financeiro mais rigoroso, maior eficiência operacional e revisões nas estratégias de comercialização. A agenda econômica relevante incluirá temas como crédito rural mais previsível, melhoria nos programas de mitigação de risco, investimentos logísticos e integração mais profunda entre agricultura e bioenergia. Teremos uma oportunidade neste ano eleitoral de discutirmos um Plano Quinquenal de Safra e torná-lo uma Política de Estado e não de governos.
O ano será desafiador, mas também cheio de oportunidades. O Brasil tem condições únicas para liderar a transição energética, produzir com baixa emissão e ampliar sua competitividade global. A resposta dependerá de coordenação entre setor público, iniciativa privada e ciência — e de um agro cada vez mais preparado para enfrentar um clima que já não permite improvisos.
Jacyr Costa Filho
Presidente do Cosag - Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e sócio da consultoria Agroadvice