Democracia exige memória
Seria um erro tratar o 8 de janeiro como um episódio isolado ou superado

Não há desenvolvimento social possível sem diálogo com a própria história. Da mesma forma, não se sustenta uma democracia sólida sem o enfrentamento direto dos projetos políticos que insistem em apagar a memória dos golpes e das ditaduras. O esquecimento nunca é neutro: ele serve, quase sempre, aos que desejam repetir o passado autoritário.
Quando a historiadora Emília Viotti da Costa afirmou que “um povo sem memória é um povo sem história”, o mundo vivia sob o peso de golpes militares e regimes ditatoriais. E, as liberdades democráticas ganhou um valor civilizatório.
O Brasil conhece bem o custo do autoritarismo. Após o golpe de Estado de 1964, o país viveu 21 anos sob uma ditadura civil-militar. A ruptura institucional teve como motivação central barrar as chamadas Reformas de Base, um conjunto de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades sociais. O período ditatorial foi marcado pela supressão de direitos, pela censura, pela perseguição política e por graves violações de direitos humanos. Sequestros, torturas e assassinatos praticados por agentes do Estado compõem um passivo histórico que o Brasil ainda busca enfrentar plenamente.
É nesse contexto que os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 devem ser compreendidos. Nesta data, grupos organizados se deslocaram a Brasília com o objetivo explícito de criar um cenário de caos institucional que servisse de pretexto para uma nova ruptura democrática. A depredação do patrimônio histórico e cultural brasileiro não foi um ato de vandalismo aleatório, mas parte de uma estratégia política. Investigações revelaram que o plano golpista incluía, inclusive, a intenção de assassinar o presidente da República, o vice-presidente e um ministro do Supremo Tribunal Federal, além de atentados terroristas, como a explosão de uma bomba no aeroporto da capital federal.
Felizmente, o golpe fracassou. As instituições democráticas resistiram. Não revivemos o modelo ditatorial de 1964. No entanto, seria um erro tratar o 8 de janeiro como um episódio isolado ou superado. A tentativa de normalizar a violência política, de desacreditar eleições e de atacar instituições permanece ativa no debate público e nas redes sociais.
Defender a democracia exige vigilância permanente, responsabilização dos culpados e, sobretudo, compromisso com a memória histórica. Não há conciliação possível com projetos autoritários. O Brasil só avançará se aprender, definitivamente, que democracia não é concessão: é conquista diária, sustentada pela lei, pela justiça social e pela participação popular. 8 de janeiro Nunca Mais!
Celi Regina da Cruz
Professora aposentada e ex-vereadora