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ARTIGO

Da poesia ao Hélio-3

A Lua deixará seu milenar fascínio para se render a ufanias de outra natureza

por Eurípides A. Silva
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
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Um dos principais objetivos da recente missão Artemis II, da Nasa, foi alcançado com o 1º voo tripulado ao redor da Lua, em mais de 50 anos. A bordo da nave Orion, quatro astronautas superaram o recorde de distância percorrida por humanos no espaço profundo, ao orbitar nosso satélite. (A marca era da Apollo 13, de 1970, com 400.171 km.) Entre outros feitos, realizaram um voo rasante pela Lua, capturando imagens inéditas de seu lado oculto e de um eclipse solar, visto do espaço, incluindo testes tecnológicos de suporte à vida além da órbita terrestre, essenciais para futuras missões a Marte.

A exploração do hemisfério lunar oculto atende a interesses estratégicos, como a captura de um isótopo raro na Terra, o Hélio-3, potencialmente capaz de suprir as necessidades energéticas do planeta por séculos! Não surpreende, portanto, o interesse de países como Estados Unidos, China, Índia e Rússia. (Detalhe: em 1959, a extinta União Soviética já fotografava a face oculta da Lua, inaugurando uma disputa tecnológica e geopolítica que nunca deixou de existir.)

Apesar do imaginário popular, o lado oculto da Lua não é escuro. Sua superfície inteira submete-se aos mesmos ciclos de dia e noite, recebendo, ao longo do tempo, a mesma quantidade de luz solar. O fenômeno da “ocultação” de uma de suas faces decorre do sincronismo que a faz levar tempos idênticos para completar um giro em torno de seu eixo e completar um giro em torno da Terra. Por isso vemos sempre a mesma face.

Mudando agora de foco, segue breve reflexão sobre o momento instigante que vive a humanidade, chamado de desencantamento do mundo. A Lua, que ao longo de milênios sempre se exibiu como uma divindade prateada, refúgio de compositores e poetas, parece na iminência de perder esse status, diante da perspectiva que lhe impõe o interesse científico.

Doravante, sob um novo significado, o de mero pit stop do sistema solar, a Lua deixará seu milenar fascínio para se render a deslumbramentos e ufanias de outra natureza, contaminados pelas disputas extrativistas e geopolíticas que para lá (e além) serão migradas.

O segredo talvez não esteja na Lua, é o que a ciência parece querer nos ensinar: devemos procurar a beleza fora da coisa observada, fora da matéria, e quem sabe a encontremos em lugares mais óbvios, como no observador. (A propósito, com o seu humor ácido e inteligente, Angeli possui um cartum mostrando um casal apaixonado, numa praia paradisíaca. Indiferente à luz inebriante da Lua, em dado momento o casal propicia o seguinte e improvável diálogo: ‘Querida, por acaso você fez um pum?’. Ela responde: ‘Fiz!’. E ele conclui: ‘Que lindo!’.)

Eurípides A. Silva

Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em S. J. do Rio Preto.