Custos em alta recolocam construção em alerta
O peso maior vem dos materiais, refletindo um cenário que combina fatores persistentes: energia mais cara, cadeias produtivas pressionadas e um ambiente ainda instável

A construção civil brasileira voltou a conviver com uma velha conhecida que é a pressão nos custos. O avanço recente do INCC-M, que subiu 1,04% em abril segundo a Fundação Getúlio Vargas, interrompe um período de desaceleração na evolução dos custos e sinaliza uma inflexão que o setor não pode ignorar.
Embora o acumulado em 12 meses ainda mostre uma redução em relação ao ano passado, o movimento recente indica uma mudança de tendência. Esse cenário segue instável, ligado aos conflitos geopolíticos internacionais, impactando cadeias produtivas e revelando um ambiente de incerteza. E a imprevisibilidade é justamente o insumo mais valioso para quem investe, constrói e decide no longo prazo.
O peso maior vem dos materiais, refletindo um cenário que combina fatores persistentes: energia mais cara, cadeias produtivas pressionadas e um ambiente ainda instável. Levantamentos acompanhados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção mostram que insumos básicos voltaram a subir consistentemente, atingindo diretamente o coração das obras — do concreto, cimento e aço ao PVC.
Ao mesmo tempo, a demanda do mercado de imóveis não perdeu o fôlego. Pelo contrário. Dados recentes da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias indicam crescimento nos lançamentos imobiliários, especialmente no segmento econômico. É uma combinação delicada com o mercado ativo com custo em alta. Em termos simples, crescer ficou mais caro e mais arriscado.
Esse descompasso já aparece fora dos grandes centros. Em São José do Rio Preto e região, onde o setor de médio padrão e o popular mantêm dinamismo, os efeitos são perceptíveis no dia a dia das empresas: revisão de orçamentos, margens mais apertadas e decisões de lançamento mais cautelosas. Não se trata de freio brusco, mas de ajuste de rota, e ajustes custam tempo e dinheiro.
A mão de obra reforça o cenário. Embora não seja o principal vetor de pressão, segue em alta, impulsionada pela recomposição salarial e pela escassez de profissionais qualificados. Soma-se, assim, esta variável a uma equação já complexa.
No final da cadeia, a conta chega ao consumidor. Parte desses custos é repassada, podendo desacelerar vendas, sobretudo em segmentos mais sensíveis à renda. Programas como o Minha Casa Minha Vida sentem esse impacto de forma mais intensa, já que operam com margens estreitas e forte dependência de previsibilidade.
Ainda assim, não se trata de ruptura. A construção civil segue como um dos pilares da economia e mantém sua capacidade de adaptação. Mas há uma diferença importante e o erro custa mais caro. Planejar ou precificar mal pode comprometer projetos inteiros.
O recado é claro. Mais do que nunca, o setor terá que ter disciplina, leitura atenta dos indicadores e decisões bem calibradas, exigindo precisão. E, em tempos assim, destaca-se menos quem cresce mais e mais quem erra menos.
Rafael Luis Coelho
Diretor-regional do SindusCon-SP e da Citz Desenvolvimento Imobiliário