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Cultura à venda

A Cultura de Rio Preto está sendo desrespeitada, desmontada e instrumentalizada

por Jorge Vermelho
Publicado há 2 horas
Jorge Vermelho (Jorge Vermelho)
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Em São José do Rio Preto, a Cultura atravessa um dos momentos mais preocupantes de sua história recente. O que deveria ser campo de construção coletiva, diálogo público e fortalecimento de políticas estruturantes transformou-se em território de negociações soturnas, onde interesses particulares falam mais alto do que o compromisso com a população.

Nos últimos anos, a cidade avançou na consolidação de instrumentos fundamentais, como o Conselho Municipal de Políticas Culturais, o Fundo Municipal de Cultura, o Cadastro da Cultura e o processo de construção do Plano Municipal de Cultura. Essas ferramentas não nasceram por acaso: foram fruto de mobilização, escuta e participação social. Hoje, no entanto, são sistematicamente relegadas a segundo plano, esvaziadas em sua função e ignoradas em decisões estratégicas. A atual gestão evidencia, com clareza desconcertante, uma visão limitada e arrogante, que reduz a Cultura a mero entretenimento, desconsiderando seu papel estruturante na formação cidadã e no desenvolvimento social.

Mais grave ainda é assistir à atual manobra política que envolve figuras que, até pouco tempo, ocupavam espaços de representação legítima. O ex-presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais, que utilizou o cargo como trampolim, agora se revela submisso a interesses que nada têm a ver com a Cultura. Sua postura recente escancara aquilo que muitos já suspeitavam: nunca foi sobre política pública, nunca foi sobre o coletivo — sempre foi sobre o próprio umbigo e a velha politicagem.

O episódio expõe, sem disfarces, o escárnio instalado. Um “artista” que se vende, que aceita o “cala-boca”, não trai apenas sua trajetória — trai toda uma classe, trai a confiança de quem acredita na Cultura como direito. Ao se colocar a serviço de acordos obscuros, revela-se não apenas conivente, mas parte ativa de um processo de desmonte.

Colocar a Cultura como instrumento de ascensão política pessoal é escolher um lado — e esse lado está frontalmente oposto aos interesses da população rio-pretense. A Cultura não pode ser moeda de troca, nem palco de vaidades. O que está em jogo é muito maior: é o direito à expressão, à memória, à diversidade e à dignidade.

O silêncio, neste momento, é cumplicidade. É preciso nomear o que está acontecendo: a Cultura de Rio Preto está sendo desrespeitada, desmontada e instrumentalizada. E a história cobrará daqueles que, podendo defender o coletivo, escolheram se vender ao poder.

Jorge Vermelho
Artista, produtor e gestor cultural.