Conversas para gringo entender
Quando se diz “aquele sujeito é um cavalo”, alguém entende isso ao pé da letra?

Outro dia, um de meus netos (9 anos) mostrou-se intrigado com a expressão “Nem que a vaca tussa!”, pronunciada por um político na TV. Resolvi, então, escrever este texto, que discuti atentamente com ele.
Foi no colegial, nos anos 60, que ouvi falar pela primeira vez nas chamadas “expressões idiomáticas”. Uma descoberta tardia, considerando a paixão dos brasileiros por uma linguagem coloquial, criativa, brejeira e bem-humorada, sempre pronta a driblar a rigidez das regras gramaticais.
Em termos conceituais, são expressões cujo sentido foge ao literal e assume um valor conotativo. Ou seja, não devem ser interpretadas apenas com base no significado isolado das palavras. Em resumo, formam um conjunto em que o todo assume um sentido diferente da soma das partes. Presentes na literatura, na publicidade e no cotidiano, servem para expressar ideias com ironia, humor e criatividade: quando se diz “aquele sujeito é um cavalo”, alguém entende isso ao pé da letra? (E “bunda-mole”?)
Meu primeiro contato consciente com as expressões idiomáticas ocorreu numa aula de inglês, com a frase “It’s raining cats and dogs”, que, literalmente, significa “está chovendo gatos e cachorros”, mas quer dizer, simplesmente, “está chovendo muito”.
Aprendi também que, no Brasil, a presença destas expressões em inglês se ampliou com a globalização e com o status do idioma como língua “universal”. Soma-se a isso o fato de que, nos anos 60, o ensino da língua no país era centrado na gramática e na tradução. Tornaram-se comuns na imprensa e no dia a dia expressões como “piece of cake” (“pedaço de bolo”, isto é, “moleza”), “easy peasy” (“mamão com açúcar”), “when pigs fly” (“quando os porcos voarem”, ou seja, algo improvável), “getting in my hair” (literalmente, “entrando no meu cabelo”, mas com o sentido de “enchendo o saco”) e, diretamente dos filmes do velho Oeste norte-americano, “reach for the sky” (“alcance o céu”, isto é, “mãos ao alto”).
No Brasil, as expressões idiomáticas dizem muito sobre nossa história e nossas manifestações culturais, refletindo a diversidade regional. Entre tantas, destaco: “salvo pelo gongo”, “rodar a baiana”, “conversa para boi dormir”, “arroz de festa”, “acabar em pizza”, “chutar o balde”, “enfiar o pé na jaca”, “perna de pau”, “pagar o pato”, “putz-grila”, “tirar água do joelho”, “ficar com a pulga atrás da orelha”, “tirar o cavalo da chuva”, “dar uma de João sem braço”, “mala sem alça”, “a casa caiu”, “a vaca foi para o brejo”, “arriar o barro” e “viajar na maionese”. Por fim, um jargão impregnado de forte nostalgia, ícone linguístico dos tempos da Jovem Guarda, nos anos 60: “é uma brasa, mora?”. Pobres dos gringos!
Eurípides A. Silva
Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em S. J. do Rio Preto.