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ARTIGO

Contra a escala 6x1

O cenário da mulher trabalhadora é marcado pela sobrecarga

por Aline Stones
Publicado há 3 horasAtualizado há 3 horas
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Aproxima-se o 1º de Maio, data histórica marcada pela luta dos trabalhadores por direitos básicos e condições dignas de vida. Mais do que uma efeméride, o Dia do Trabalho simboliza conquistas obtidas por meio da mobilização coletiva: jornada limitada, descanso semanal e proteção social. No entanto, esse legado vem perdendo espaço entre parcelas da juventude que, influenciadas por discursos neoliberais, passam a enxergar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) como algo ultrapassado, enquanto idealizam o “empreendedor de si mesmo” como caminho seguro de ascensão econômica. Na prática, essa narrativa frequentemente encobre a precarização e a ausência de garantias.

A desmobilização dos trabalhadores enfraquece a luta por direitos. Isolados e individualizados, reduzem-se as possibilidades de organização coletiva e de pressão política. Essa dispersão impacta pautas fundamentais, como as reivindicações das mulheres e a visibilidade do trabalho doméstico e do cuidado — atividades essenciais, historicamente invisibilizadas, não remuneradas e atribuídas majoritariamente às mulheres. O cenário da mulher trabalhadora é marcado pela sobrecarga: muitas acumulam jornadas múltiplas, especialmente em escalas intensas como a 6x1, sem tempo para lazer, desenvolvimento pessoal, cuidado afetivo ou descanso.

Além disso, o mercado de trabalho ainda se mostra hostil às necessidades concretas da vida das mulheres. A falta de vagas em creches públicas de qualidade e de políticas de cuidado no período contraturno escolar impõe uma insegurança constante às famílias, especialmente às mães trabalhadoras. Essa ausência de suporte expõe crianças e adolescentes a situações de vulnerabilidade e violência, ao mesmo tempo em que limita a permanência e o crescimento das mulheres no mercado de trabalho. O que se observa é um sistema rígido, que exige adaptação total da vida ao trabalho, e não o contrário.

Esse cenário limita o acesso à educação e ao desenvolvimento intelectual, perpetuando desigualdades. Mulheres, maioria da população brasileira, sustentam grande parte da economia, pagam impostos e exercem papel central na formação das novas gerações. Ainda assim, vivem sob um modelo que explora seu trabalho e seu tempo.

E, mesmo ao encerrar a jornada, enfrentam outro risco: o espaço público inseguro. No trajeto para casa, convivem com o medo constante de assédio, agressão e feminicídio, expressão de uma violência de gênero que atravessa o cotidiano. Trata-se de uma realidade que expõe a urgência de repensar o trabalho, a cidade e a própria sociedade.

Aline Stones

Professora pedagoga; Doutoranda em educação pela UFSCar. Militante anticolonial. Membro do coletivo Mulheres na política.