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Bebês adquirem mais espécies de microrganismos dos colegas de creche do que dos pais

O ser humano é realmente complexo. E não, não estamos falando de psicologia ou das dificuldades nas interações sociais, mas de algo menos visível e igualmente fascinante, que é a forma como nossa microbiota interage com as pessoas ao nosso redor.
Estimativas atuais sugerem que o corpo humano abriga mais células de microrganismos do que células propriamente humanas. Pode soar surpreendente, mas já existem evidências científicas sólidas de que nosso bem-estar está diretamente ligado a uma certa harmonia entre as células do nosso microbioma.
Esses micróbios são verdadeiros aliados, sendo que eles produzem muitos dos compostos que ajudam a regular nosso metabolismo, contribuindo para a manutenção da saúde e para a forma como reagimos ao estresse e a diferentes doenças. Isso acontece porque esses microrganismos possuem dezenas ou até centenas de vezes mais genes do que o nosso próprio organismo, que conta com cerca de 20 mil genes.
Com esse arsenal genético, conseguem produzir substâncias que nosso corpo utiliza, como ácidos graxos de cadeia curta e diversas vitaminas, entre elas B1, B2, B7, B9, B12 e K2, além de muitos outros compostos essenciais. Mas afinal, de onde vêm esses micróbios?
Um estudo recente, publicado em 20 de janeiro na prestigiada revista Nature pela microbiologista Nicola Segata, da Universidade de Trento, na Itália, trouxe uma resposta curiosa: bebês adquirem mais espécies de microrganismos de seus colegas de creche do que dos próprios pais.
Antes do nascimento, os bebês praticamente não possuem microbiota. Logo após o parto, porém, essa comunidade começa a se formar, principalmente por meio do contato com a mãe, durante a amamentação ou mesmo por meio da alimentação suplementar. Ao ingressarem na creche, os pesquisadores passaram a coletar amostras semanais dos bebês, dos pais, dos funcionários das instituições e até dos animais de estimação das famílias.
Os resultados mostraram que, após quatro meses frequentando a creche, os bebês compartilhavam entre 15% e 20% do total de microrganismos presentes em sua fauna intestinal. Esse valor supera a quantidade de micróbios adquiridos da família até aquele momento.
Embora parte dessa troca esteja associada à alimentação compartilhada, o estudo revelou algo ainda mais interessante. Microrganismos podem passar dos pais para um bebê, deste para outros bebês da creche e, posteriormente, passar para os pais dessas crianças. Curiosamente, também foram observadas trocas de micróbios entre bebês e animais de estimação, algo que não ocorreu entre os adultos.
Diante da importância dos microrganismos para o nosso bem-estar, descobrir que essas trocas começam tão cedo, ainda na creche, reforça uma ideia poderosa de que nossa saúde não depende apenas de quem somos individualmente, mas também de quem está ao nosso lado.
Fábio Rogério de Moraes
Físico, Auxiliar de Pesquisa, IBILCE - UNESP.