Cidade contra cidade? Não mais!
Internacionalizar um aeroporto não é apenas mudar a placa na fachada

Alguns fatos nos levam a remontar o passado, por vezes com alegria. Na atualidade, não são poucos que devem se lembrar do famoso quadro de auditório e gincana “Cidade Contra Cidade", exibido originalmente pela TV Tupi dentro do Programa Silvio Santos.
O formato que marcou época promovia uma divertida disputa entre dois municípios brasileiros, que enviavam delegações para competir em provas de talentos, conhecimentos, cultura e curiosidades. Foi, definitivamente, um evento cuja competição alegrava a todos.
Hoje, a disputa entre cidades ganha tristes contornos, caso conduzida com despreparo, maniqueísmo político, baixa visão administrativa e, supostamente, abundância de recursos públicos disponíveis. É o caso em curso em nossa região após o anúncio da criação do aeroporto internacional de Olímpia, com investimentos de R$ 500 milhões do governo do presidente Lula.
Mas, longe das necessidades políticas eleitorais de cada um, é necessário perceber os argumentos técnicos, econômicos e logísticos contrários à internacionalização de um segundo aeroporto internacional na mesma região.
Primeiro, a demanda por voos internacionais em cidades medianas costuma ser limitada. Dividir essa demanda entre dois aeroportos muito próximos faz com que nenhum dos dois consiga atrair as companhias aéreas. Empresas aéreas buscam consolidar seus voos em um único eixo regional para otimizar custos, conexões e manutenção. Elas dificilmente vão operar rotas internacionais em dois aeroportos vizinhos.
Internacionalizar um aeroporto não é apenas mudar a placa na fachada. Exige investimentos massivos que podem se transformar em um "elefante branco". Aeronaves de grande porte (usadas em voos internacionais de longa distância) exigem pistas mais longas, mais largas, com maior resistência de pavimento e posições de pátio ampliadas. É necessário construir áreas separadas para embarque e desembarque internacional, com esteiras de bagagem exclusivas e fluxos que impeçam a mistura de passageiros domésticos e internacionais antes da fiscalização.
Para um aeroporto ser internacional, ele precisa abrigar permanentemente estruturas de fiscalização do Estado. O custo para manter essas equipes em um aeroporto sem demanda diária é proibitivo. Se a demanda for baixa, os órgãos competentes de controle de passaportes, de bagagens e de riscos à saúde podem se recusar a alocar servidores públicos para postos de trabalho ociosos, inviabilizando a operação.
Os recursos públicos para a ampliação e manutenção dessa outra estrutura internacional poderiam ser muito mais úteis se investidos, por exemplo, na criação de uma infraestrutura de conectividade rápida (como uma boa rodovia ou linha de trem/ônibus expressa) até o aeroporto internacional vizinho do que tentando replicar uma estrutura cara e potencialmente ociosa dentro de casa.
Em resumo, em uma região carente por saúde, educação, habitação e tantas outras demandas para o orçamento público, não é sequer honesto propor um “cidade contra cidade” apenas pela sobrevivência política.
Carlos Alexandre
Presidente Municipal do PT Rio Preto. Formado em Adm. Pública pela Federal Ouro Preto.