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ARTIGO

Chega de bombons, queremos salário e valorização

O amor pela profissão não paga as contas e tampouco protege contra o esgotamento

por Eduardo Alves de Lima
Publicado em 11/08/2026 às 19:21Atualizado em 11/08/2026 às 19:27
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A cena se repete a cada início de ano ou semestre letivo. Apitos, balões coloridos, músicas motivacionais em volume máximo e palestras com frases de efeito que prometem transformar a educação pelo "amor à camisa". É a tradicional recepção de volta às aulas nas escolas brasileiras. Contudo, por trás dos sorrisos amarelos e das palmas ensaiadas, a realidade dos professores é de profundo esgotamento. A categoria está exausta de ser tratada com infantilização e demagogia, enquanto seus direitos fundamentais são ignorados pelo poder público e pelas mantenedoras.

Nas primeiras semanas de trabalho, os docentes são submetidos a maratonas de planejamento que, na prática, não planejam nada de efetivo. São horas consumidas por dinâmicas de grupo estéreis, preenchimento de planilhas burocráticas desconectadas do chão da escola e reuniões infindáveis que ignoram os reais desafios pedagógicos. Enquanto o tempo útil do professor é desperdiçado em dinâmicas de integração inócuas, faltam minutos preciosos para a preparação real das aulas, para a correção criteriosa de avaliações e para o estudo aprofundado de seus conteúdos.

Além disso, a romantização do magistério tornou-se uma ferramenta perversa de precarização. Frases como "ser professor é uma vocação divina" servem apenas como cortina de fumaça para mascarar salários defasados, salas de aula superlotadas e a ausência de apoio à saúde mental. O amor pela profissão não paga as contas, não compra livros e tampouco protege contra o esgotamento. Os professores não querem ser vistos como heróis sacrificados; exigem ser reconhecidos como profissionais qualificados de uma área essencial.

Já passou da hora de compreender que o respeito à categoria não se mede com um bombom deixado sobre a mesa ou com um tapinha condescendente nas costas. Valorização real se traduz em cumprimento rigoroso do Piso Salarial Nacional do Magistério, em planos de carreira bem estruturados que valorizem a formação continuada, em infraestrutura digna e em políticas sérias de proteção à saúde do trabalhador da educação.

A volta às aulas deveria representar um momento de renovação e esperança, mas continuará sendo uma encenação vazia enquanto a dignidade docente for negligenciada. Investir em educação de excelência exige, obrigatoriamente, investir em quem leciona. O professor não necessita de afagos simbólicos; precisa de salário justo, condições adequadas de trabalho e do respeito concreto que a sua nobre missão exige.

Eduardo Alves de Lima

Professor de História e Pedagogo, Diretor Social do Sinpro Rio Preto e Região e Diretor Adjunto de Formação Política e Sindical da FEPESP.