Cegueira coletiva no trânsito
Além da conscientização dos usuários, uma boa gestão da mobilidade urbana se faz pertinente

Uma reportagem recente do Diário da Região informa que, a cada três minutos, uma infração de trânsito é registrada em Rio Preto, o equivalente a uma média de 22 infrações por hora, com leve diminuição quando comparada aos mesmos primeiros trimestres de anos anteriores.
A fiscalização é um dos tripés da segurança no trânsito, em conjunto com uma boa legislação e sobretudo, com as ações de educação. A criação de uma cultura de segurança viária é o principal objetivo das iniciativas ligadas ao trânsito.
Neste contexto, a campanha Maio Amarelo de 2026 propõe como tema: “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. Busca ampliar o debate sobre a necessidade de proteção aos usuários mais vulneráveis no trânsito, especialmente os motociclistas, principais vítimas atualmente.
Dados do INFOSIGA, plataforma do DETRAN-SP sobre sinistralidade, mostram 62 vítimas fatais em 2025 em Rio Preto, número que se mantém praticamente constante pós-pandemia. Dessas 62 vítimas, 42% estavam em motocicletas, 5% em bicicletas e 24% eram pedestres. Assim, pessoas mais sujeitas a maior gravidade das lesões em sinistros, devido à falta de proteção, totalizaram mais de 70% dos óbitos, e por isso o necessário olhar proposto pela campanha.
Além da conscientização de todos os usuários, uma boa gestão da mobilidade urbana se faz pertinente. As Universidades de São Paulo e Federal do Ceará, em conjunto com o Instituto Cordial e a organização Vital Strategies, conduziram uma robusta pesquisa que avaliou os efeitos da Faixa Azul, faixa de rolamento dedicada a motocicletas, em vias de alta circulação da cidade de São Paulo.
O estudo constatou que a faixa exclusiva não melhora a segurança dos motociclistas, pois propicia o crescimento exagerado da velocidade média, estimulando o comportamento de risco, ao exceder o limite máximo de segurança. Na experiência paulistana, houve aumento de sinistros fatais nas ocorrências em cruzamentos com envolvimento de motociclistas, da ordem de 100% a 120%.
O resultado da pesquisa retrata os desafios dos gestores. A principal ferramenta, e que não depende apenas da municipalidade, é a oferta de um transporte público coletivo de boa qualidade a tarifas mais módicas ou mesmo zero. No ano passado, por exemplo, não houve vítimas fatais entre os usuários de ônibus.
Tal qual no livro de José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, uma cegueira social e coletiva também ocorre no trânsito. Coincidentemente, no livro, a primeira pessoa a ficar cega é um motorista. Precisamos, então, abrir nossos olhos para a situação, dirigindo com maior responsabilidade e mais cortesia.
Cássio Leandro do Carmo
É rio-pretense e professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) – Uberaba/MG.