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Carnaval não atrasa o Brasil, a falta de clareza sim

Produtividade não nasce da eliminação de feriados, nasce de clareza estratégica

por Elisa Oliveira
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Todo ano, no mesmo período, o debate se repete. O carnaval estaria atrasando o Brasil. Dias parados, agendas vazias, produtividade comprometida. A crítica é fácil, recorrente e, sobretudo, confortável. O problema é que ela ignora a causa real.

O carnaval não atrasa o Brasil. O que atrasa o Brasil é a falta de clareza. Clareza sobre objetivos, prioridades, processos e responsabilidades. Sem isso, qualquer pausa vira ameaça. Com isso, o calendário deixa de ser um problema.

Pausas fazem parte de qualquer sistema produtivo saudável. Países altamente produtivos têm feriados, férias estruturadas e jornadas de trabalho menores do que as brasileiras. A diferença não está no número de dias trabalhados, mas na organização do trabalho quando ele acontece.

No Brasil, muitas empresas ainda operam sem planejamento consistente. Tudo depende de presença constante, decisões em cima da hora e esforço contínuo. Quando uma pausa aparece, o sistema entra em colapso. Não porque a pausa é longa, mas porque o trabalho nunca foi bem estruturado.

Falta clareza. E falta de clareza custa caro. Sem objetivos bem definidos, as pessoas gastam energia decidindo o óbvio. Sem processos claros, o retrabalho se torna rotina. Sem prioridades, tudo vira urgente. A produtividade se perde no ruído do dia a dia.

Culpar o carnaval é conveniente. Desloca a responsabilidade da gestão para a cultura. Evita perguntas mais difíceis, como por que tudo é urgente, por que decisões dependem sempre da última hora, por que a operação não se sustenta sem esforço contínuo?

Produtividade não nasce da eliminação de feriados. Nasce de clareza estratégica, método e liderança preparada. O Brasil não precisa trabalhar mais dias. Precisa trabalhar melhor nos dias que já tem.

Empresas que atravessam o carnaval sem impacto relevante não são exceção. São organizações que sabem exatamente o que precisa ser feito, por quem e em qual prazo. Planejam entregas, antecipam decisões e organizam fluxos. O descanso não interrompe o trabalho, apenas o respeita.

Quando a clareza existe, pausas deixam de ser vilãs e passam a fazer parte do sistema. O problema nunca foi o feriado. O problema é a improvisação permanente, disfarçada de dedicação.

Enquanto a gestão for reativa, qualquer pausa será vista como atraso. Quando a liderança amadurece, o calendário deixa de ser desculpa e passa a ser apenas uma variável conhecida. No fim, a discussão não é sobre carnaval. É sobre maturidade organizacional.

Elisa Oliveira

Empresária.