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Conjuntura

Cadê o debate político?

O país gera riqueza em escala continental, mas precisa destravar seu crescimento e sair da chamada armadilha da renda média

por Hipólito Martins Filho
Publicado há 2 horasAtualizado há 1 hora
Hipólito Martins Filho (Hipólito Martins Filho)
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Estamos próximos das eleições presidenciais e, ao que tudo indica, o debate deverá se concentrar em denúncias de corrupção, assistencialismo de baixa qualidade e ideologias ultrapassadas, enquanto temas fundamentais seguem negligenciados.

Oficialmente, a corrida eleitoral ainda não começou, mas, se depender dos dois principais pré-candidatos à Presidência da República, haverá pouco conteúdo relevante a ser debatido. Não se observam discussões consistentes sobre prioridades nacionais, tampouco sobre os desafios estruturais que o país enfrenta e suas reais necessidades.

A percepção crescente da população é de que a política nacional está contaminada por práticas pouco republicanas, o que amplia a descrença nas instituições. Nesse cenário, a chamada “guerra cultural” — centrada principalmente em temas de costumes — passa a dominar o debate público, deslocando questões muito mais relevantes para segundo plano.

O resultado é o empobrecimento da democracia, o avanço do radicalismo e a perda da capacidade do eleitor de fazer escolhas informadas e estratégicas. O embate ideológico acaba obscurecendo problemas centrais como o ajuste fiscal, as reformas administrativa, previdenciária e jurídica, a abertura econômica, os gargalos de infraestrutura, a incorporação de novas tecnologias, além das deficiências históricas na saúde pública e na educação básica.

Medidas estruturantes vêm sendo substituídas por ações populistas e de curto prazo. O debate presidencial deveria estar ancorado em uma agenda concreta para o país. A maioria dos nossos problemas já foi diagnosticada — e, em grande medida, sabemos o que precisa ser feito. Não se trata de soluções imediatas, mas de um compromisso contínuo com reformas e planejamento.

Cabe ao campo político de centro apresentar um projeto consistente de desenvolvimento econômico de médio e longo prazo, afastado do radicalismo que hoje predomina. Um projeto com visão de Estado, que combine responsabilidade fiscal, sensibilidade social e fortalecimento institucional.

Diante disso, surge uma questão central: o Brasil é um país viável?

A resposta é sim. O país possui fundamentos robustos, mas enfrenta gargalos que limitam seu potencial. Trata-se de uma das maiores extensões territoriais do mundo, com uma população superior a 200 milhões de pessoas e entre as maiores economias globais. É autossuficiente em energia, com forte presença de fontes renováveis — cerca de 85% da matriz elétrica — o que representa vantagem estratégica na transição energética.

Além disso, o Brasil é potência em petróleo, alimentos e minerais estratégicos, sendo líder global na produção de soja, café, açúcar e suco de laranja. Conta com um setor privado dinâmico, com destaque para o agronegócio, mineração, petróleo, aviação e um sistema financeiro sólido e sofisticado. Seu mercado consumidor é amplo e altamente urbanizado.

Por outro lado, persistem entraves significativos: complexidade tributária (ainda que em processo de reforma), elevada desigualdade social, fragilidade no sistema educacional e instabilidade institucional.

O país gera riqueza em escala continental, mas precisa destravar seu crescimento e sair da chamada armadilha da renda média. Crescer de forma consistente acima de 2% a 3% ao ano exige reformas profundas.

O chamado “Custo Brasil” logístico consome cerca de 12% do PIB, frente a aproximadamente 8% nos países da OCDE. Transportar um saco de soja do Mato Grosso até um porto nacional pode custar mais do que enviá-lo dos Estados Unidos à China.

Com tantas potencialidades, é difícil ignorar dados preocupantes: entre 2010 e 2024, 111 dos 123 países analisados por organismos internacionais cresceram mais que o Brasil; o salário real de 2024 recuou em relação a 2020; e cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas.

Os números deixam claro: é possível reverter esse quadro. O país tem recursos, escala e capacidade. O que falta é direção estratégica — e um debate político à altura desses desafios.